O
SAGRADO E O PROFANO
Professor
José Maria de Oliveira Junior
Macumba é uma espécie de árvore africana e também um instrumento
musical utilizado em cerimônias de religiões afro-brasileiras, como o candomblé
e a umbanda. O termo, porém, acabou se tornando uma forma pejorativa de se
referir a essas religiões - e, sobretudo, aos despachos feitos por alguns
seguidores (veja boxe). Na árvore genealógica das religiões africanas, macumba
é uma forma variante do candomblé que existe só no Rio de Janeiro. O
preconceito foi gerado porque, na primeira metade do século 20, igrejas
neopentecostais e alguns outros grupos cristãos consideravam profana a prática
dessas religiões. Com o tempo, quaisquer manifestações dessas religiões
passaram a ser tratadas como "macumba". Entenda nas próximas páginas
as diferenças entre os cultos de origem africana.
Gira no Congá
Cerimônia da umbanda começa com defumação e termina com
desincorporação dos médiuns
1. Para entrar no congá - onde
rolam as cerimônias da umbanda -, o público deve tirar os sapatos em respeito
ao solo, que é sagrado. A cerimônia, chamada de gira, começa à noite, por volta
das 20 h, e, quando os fiéis chegam, os médiuns já estão lá, incluindo o
sacerdote.
2. A preparação do congá, local
onde ocorrem as incorporações das entidades, começa com a defumação: ervas como
alecrim são queimadas num braseiro. O ritual, que purifica e passa energia, é
acompanhado de ponto cantado - todas as cantigas são chamadas de pontos na
umbanda.
3. Em seguida, o sacerdote
ministra um tema de reflexão para o dia, como faz o padre em uma missa
católica. Também ocorrem a oração de abertura, os pontos de abertura (que
saúdam a umbanda), cânticos ao orixá regente (cada orixá tem seu dia da semana)
e a apresentação da linha de trabalho do dia.
4. O passo seguinte é a saudação
aos guardiões (Exu) e guardiãs (sua versão feminina). Nesse momento, todos
viram-se em direção à tronqueira, o "altar" de Exu, do lado de fora
do congá. Os fiéis saúdam, reverenciam e pedem proteção aos guardiões que
protegem o templo.
5. Começa a batida dos atabaques e
são entoados os pontos de chamada, cânticos que invocam a linha de trabalho do
dia. O sacerdote é o primeiro a incorporar o orixá e, depois que tiver recebido
sua entidade, comandará os trabalhos, conduzindo a incorporação dos médiuns.
6. Cada médium incorpora só uma
entidade (entre orixás e humanos, como o Preto Velho e o Caboclo), mas a mesma
entidade pode se repetir - é possível ter dezenas de Pretos Velhos num mesmo
terreiro. Após todos incorporarem, ocorre o atendimento ao público.
7. Ao final do atendimento, é
entoado o ponto de subida, canto que embala a desincorporação dos médiuns. Em
seguida, é feita uma prece final de encerramento, e a gira termina por aquela
noite.
Despacho na encruzilhada
Nem sempre oferenda é indício de magia negra
Os despachos nos cruzamentos ganharam fama de "macumba"
porque são uma das expressões mais visíveis dessas religiões fora dos templos.
Mas, na verdade, eles são oferendas para o orixá Exu, geralmente pedindo
proteção. São colocados em encruzilhadas porque esses lugares representam a
passagem entre dois mundos. Existem, sim, despachos feitos para fazer mal aos
outros (mais no candomblé, onde não existe distinção entre o bem e o mal,
diferentemente da umbanda), mas nenhuma das religiões incentiva essa prática.
Aprendiz de umbanda
Entenda como uma pessoa comum pode se tornar médium e incorporar
entidades
1. Quem tem interesse em ser mais
que um observador da umbanda pode ir às giras e esperar que a entidade
incorporada o identifique. A entidade aponta a "vocação" da pessoa:
médium de incorporação, ogã (quem toca os instrumentos) ou um cambone
(auxiliares dos médiuns).
2. Os que serão médiuns frequentam
as giras de desenvolvimento mediúnico, sessões de iniciação fechadas ao
público, nas quais os ogãs entoam cânticos chamando a entidade espiritual. O
iniciante medita sobre as vibrações do dia e realiza banhos de ervas e
oferendas para o orixá.
3. Quando o iniciante começa a
incorporar, ele entra na "fase de firmeza", em que, incorporado,
risca símbolos no chão, acende velas e conversa com o sacerdote sobre sua forma
de trabalho.
4. Agora o iniciante já pode
aplicar "passes energéticos" em roupas e objetos e imantar água. Em
seguida, ele passa a poder aplicar os passes em crianças e, enfim, é inserido
na linha de atendimento das giras públicas. Em geral, a iniciação termina
depois de alguns meses.
Festa no Ilê
Cerimônia do candomblé tem sacrifício de animais, farofa e até
cachaça
1. Os procedimentos começam à
tarde, com o despacho de Exu, fechado ao público. São sacrificados dois animais
(uma ave ou um animal de quatro patas, como bode, para Exu e outro para o orixá
homenageado do dia). O sangue dos bichos é derramado sobre o assentamento (ou
seja, o "altar") do orixá, em oferenda.
2. Os membros se reúnem em círculo
no barracão, conhecido como ilê, onde também há uma vasilha com farofa com
dendê, feijão ou inhame e um copo com água ou cachaça. São feitos cânticos e
orações e um filho de santo leva parte da comida para fora do barracão, em
oferenda. A porta é batizada com bebida, já que Exu é o deus dos cruzamentos.
3. No fim da tarde, começa o
toque, a cerimônia pública. Ao som de atabaques, são entoadas as cantigas de
xirê, que homenageiam os orixás. Os filhos de santo entram na roda, um a um, em
ordem - o filho de Ogum é sempre o primeiro. Começam as incorporações. Os
filhos de santo estremecem, sinal de que a entidade foi incorporada.
4. O primeiro a incorporar é
sempre o orixá homenageado. O filho ou filha que incorporou o orixá assume o
comando da festa, dançando e curando doentes. São auxiliados pelas equedes
(ajudantes). Aos poucos, os outros orixás incorporam também.
5. A um sinal do babalorixá (pai
de santo), os filhos se retiram para uma sala onde se vestem com os trajes dos
respectivos orixás. Cada orixá tem uma roupa que difere nas cores e nos
acessórios, como a espada de Ogum. Quando voltam, já como divindades, todos
ficam em pé para recebê-los.
6. Os orixás também voltam em
ordem, com exceção do homenageado da noite, que entra primeiro. Quando todos já
entraram, cada orixá incorporado dança sozinho para uma música tocada só para
ele, utilizando toda a área do barracão. Um por vez, todos os orixás fazem sua
dança.
7. Ao som dos instrumentos, o
orixá senta e começa o atendimento, abençoando e tocando os presentes, além de
dar passes. Por volta da meia-noite, os atabaques tocam as cantigas de Oxalá,
encerrando a festa. Feito isso, partes dos animais sacrificados são servidas em
um jantar feito no barracão.
A grande família
Conheça os orixás mais cultuados nos terreiros
Oxalá É o orixá da
criação e "chefe" de todos os orixás no candomblé
Ogum
Orixá que manipula
e forja metais para fazer suas armas
Obaluaiê
Associado à morte e
à passagem para o plano espiritual
Oxumaré
É o orixá dos
ciclos, dos movimentos e do arco-íris
Oxum
Orixá feminino, é a
patrona das águas doces - rios, lagos e cachoeiras
Nanã
A mais velha dos
orixás protege os pântanos e as chuvas
Exu
Protetor dos
caminhos entre o mundo material e o espiritual
Oxóssi
Orixá da caça, da
fartura e da riqueza, é o senhor da floresta
Oçaim
Orixá das folhas
sagradas e das ervas medicinais
Xangô
Representa o fogo,
o trovão e a justiça. Tem um aspecto viril
Iansã
Orixá dos ventos e
das tempestades, é uma entidade passional
Iemanjá
A orixá dos mares e
oceanos. É mãe de alguns orixás
Aprendiz de Candomblé
Entenda como uma pessoa comum pode se tornar filho de santo
1. Durante uma festa, a pessoa
"bola no santo", tendo tremores que indicam que deve ser iniciada no
candomblé. O abiã (iniciante) geralmente veste branco.
2. O bori é a cerimônia em que o
iniciante faz oferendas para o orixá. Ele também sacrifica aves, como pombos, e
depois é marcado com o sangue dos animais
3. Durante 21 dias, o iniciante se
recolhe a um quarto chamado roncó. Lá, ele aprende danças, orações, mitos e
detalhes sobre seu orixá. Ele não bebe álcool e não conversa.
4. O recolhimento é encerrado com
o sacrifício de um animal quadrúpede. Ao final, ocorre uma festa chamada orô,
em que os abiãs saúdam os presentes, depois dançam e finalmente incorporam seu
orixá em público.
A orquestra do Orixá
Divindades são chamadas com instrumentos de percussão
Os instrumentos tocados pelos ogãs são, principalmente, atabaques,
espécies de tambores que ditam o ritmo da dança. Outros instrumentos bastante usados
são o agogô, que traz dois funis metálicos, tocados com uma vareta de ferro, e
o xequerê, que é uma semente de cabaça cercada por uma rede de malha com
contas, tocada como se fosse um chocalho. O instrumento macumba, que deu nome
ao culto, hoje pouco utilizado, é parecido com um reco-reco.