Para
percebermos melhor o papel que Lucíola e Aurélia desempenharam
nos respectivos romances, é bom lembrarmos que até os princípios do século XIX,
não se cultivava, como já se fazia na Europa, o costume da rua e dos salões,
dentro da família brasileira, mesmo aquela citadina. O quadro era bem diferente
no Brasil. O que caracterizava a família era exactamente a sua absoluta
reclusão, em especial no que toca à mulher.
Este facto é comprovado numa
carta, datada desta época, onde um jovem esboça o perfil de sua noiva ao pai,
ressaltando o que se considerava serem as principais qualidades de uma jovem
distinta: “(…) não é rigorista de modas; não sabe dançar nem tocar; não serve
de ornato à janela com leque e com o lenço, não sabe tomar visitas nas
salas...”
Afinal, verificamos que o
que se esperava da então dita “rainha do lar” é que se devotasse com muita
paixão às diferentes actividades que faziam parte do seu governo doméstico a
ponto de não lhe sobrar tempo ou mesmo vontade de servir de “ornato às
janelas”.
Este
facto começa a alterar-se a partir da cidade do Rio de Janeiro, a corte do
regente D. João VI e depois dos imperadores Pedro I e II. A partir desta
altura, as mulheres brasileiras, europeizando-se, começaram a aparecer pela
primeira vez diante de estranhos e os salões dos sobrados anteriormente sempre fechados
eram abertos para as chamadas reuniões “burguesas”, onde passavam a ser
projectados importantes negócios e alianças políticas.
Convém
ressaltar que nestas ditas reuniões de negócios, já se começava a reclamar um
novo tipo de comportamento às donas de casa que, diga-se de passagem, estivera
até então restrita à esfera doméstica.
A partir deste
momento, percebemos que a imagem da mulher começa a pesar e muito na direcção
das pretensões econômicas ou políticas do marido uma vez que a sua postura
diante dos convidados, sua aparência, suas jóias, seus vestidos, seu modo de
receber e de se insinuar junto às grandes personalidades, assim o exigiam.
Assim sendo, a mulher que
outrora se escondia dentro de casa para não ser vista por visitantes
masculinos, começa a adaptar-se a esta nova representação de convívio em
sociedade uma vez que agora a própria sociedade exigia que ela abandonasse o
isolamento em proveito de uma atitude precisamente oposta. Interessante é que,
finalmente, é concedida à mulher a permissão para sair às ruas.
notadas.
Este
facto começa a alterar-se a partir da cidade do Rio de Janeiro, a corte do
regente D. João VI e depois dos imperadores Pedro I e II. A partir desta
altura, as mulheres brasileiras, europeizando-se, começaram a aparecer pela
primeira vez diante de estranhos e os salões dos sobrados anteriormente sempre
fechados eram abertos para as chamadas reuniões “burguesas”, onde passavam a
ser projectados importantes negócios e alianças políticas.
Convém
ressaltar que nestas ditas reuniões de negócios, já se começava a reclamar um
novo tipo de comportamento às donas de casa que, diga-se de passagem, estivera
até então restrita à esfera doméstica.
A
partir deste momento, percebemos que a imagem da mulher começa a pesar e muito
na direcção das pretensões económicas ou políticas do marido uma vez que a sua
postura diante dos convidados, sua aparência, suas jóias, seus vestidos, seu
modo de receber e de se insinuar junto às grandes personalidades, assim o
exigiam.
Assim sendo, a mulher que
outrora se escondia dentro de casa para não ser vista por visitantes
masculinos, começa a adaptar-se a esta nova representação de convívio em
sociedade uma vez que agora a própria sociedade exigia que ela abandonasse o
isolamento em proveito de uma atitude precisamente oposta. Interessante é que,
finalmente, é concedida à mulher a permissão para sair às ruas.
A partir desse quadro
podemos, então, afirmar, que é este tipo de mulher, digamos, carnal, esta
“mulher de salão”, esta “mulher da rua”, esta mulher que inclusive lê romances,
( Lúcia, por exemplo, gostava de ler “A Dama das Camélias” e Aurélia
“Shakespeare”) o modelo local que possivelmente teria inspirado os
primeiros romances urbanos brasileiros e, entre as quais, destacamos Lucíola
e Senhora.
3.3- A
escolha de José de Alencar pela temática da mulher
Das
pesquisas feitas descobrimos que Alencar, desde criança, apresentou um grande
interesse pelo universo feminino. É o próprio autor a afirmar, em sua obra Como
e porque sou romancista, que era ele quem fazia as leituras em sua casa
para um público basicamente feminino: mãe, tia e visitas. O autor fala sobre
como as mulheres se emocionavam com as leituras que ele fazia dos romances e
como era impressionante a forma como elas se envolviam nas histórias
apresentadas.
Alencar diz ser esta
experiência que, provavelmente, lhe terá despertado o interesse pelos romances,
daí vir mais tarde a tornar-se um escritor: “Foi essa leitura contínua e
repetida de novelas e romances que primeiro imprimiu em meu espírito a
tendência para essa forma literária que é entre todas a de minha predileção.”
(Alencar, 2005, p. 29)
Inferimos,
quando Alencar afirma - ser ele o leitor oficial da família - que as mulheres
brasileiras no início do século XIX ainda não tinham adoptado a prática da
leitura, até porque, no período, era bastante reduzido o número de mulheres
alfabetizadas, no entanto, podemos notar que elas já apresentavam um grande
interesse pelas histórias dos romances.
É importante destacarmos que
a chegada dos romances ao Brasil foi um dos factores que contribuiu para
desenvolver nas mulheres o hábito da leitura.
Pensamos ser
correcto dizer que a inteligência e a refinada educação das personagens de
Alencar faziam delas mulheres à frente de seu tempo. No entanto, devemos
destacar que isso não fazia delas mulheres contrárias ao casamento ou mesmo
insubmissas aos maridos. Tais personagens podiam ser tomadas como modelos
ideais de donas de casa, prontas para assumirem o papel de mãe e de esposa.
O amor continua sendo para
elas o ideal de felicidade e o casamento a concretização dessa felicidade. Elas
se sujeitam aos seus amados não por medo ou por obrigação, mas por amor.
Podemos
ver que a educação e a inteligência da personagem não fazem com que ela deixe
de lado as prendas domésticas, ao contrário, por ser prendada, ela se torna
ainda mais admirável e virtuosa aos olhos do narrador.
As heroínas românticas,
representam, para o futuro esposo, duas funções básicas: a primeira seria a de
objecto de prazer, daí o destaque dado à beleza dessas personagens; e a segunda
é o da organização familiar — é ela quem vai cuidar da casa e dos filhos para
que ele possa cumprir suas obrigações fora do ambiente doméstico — daí elas
serem representadas como mulheres virtuosas e prendadas.
4.2- Aurélia:
uma mulher à frente de sua época
Em
Senhora, Alencar cria, à semelhança de Lucíola, uma heroína, também ela
com traços de carácter ambíguos, à partida.
Esta
constatação baseou-se na análise da personalidade da protagonista da obra.
Podemos
perceber, na personagem, uma mistura de boa e má, anjo e demónio, Bela e Fera.
Exemplifiquemos com alguns trechos da obra as qualidades de boa, anjo, fera e
demónio, respectivamente:
Corria então Aurélia a consolá-lo. Sabia ela já a causa
daquele pranto, cuja explicação uma vez lhe arrancara à força de carinho e
meiguice. Tirava-o do desespero, animava-o a tentar a operação, e para
suster-lhe os esforços ia auxiliando-lhe a memória e dirigindo o cálculo. (
Alencar, 2004, p. 61)
Observamos
que Aurélia, construída de acordo com a concepção romântica e, por isso mesmo,
conservando e difundindo o mito da beleza e pureza, oscila entre a passividade
servil e as atitudes de reivindicação, agindo sobre o universo masculino de
modo a fazê-lo, de certa forma, satisfazer suas exigências e anseios:
“Soltando estas
palavras com pasmosa volubilidade, que parecia indicar o requinte da
imprudência, Fernando sentou-se outra vez defronte da mulher.
- Espero suas
ordens.
- Oh! Sim,
deixe-me! Exclamou Aurélia. O senhor me causa horror.” ( Alencar, 2004, p. 86).
É necessário salientar a
importância que Alencar concede à mulher, apresentando a sua capacidade de
expor as suas qualidades femininas de conquista ao homem amado.
Podemos, então,
afirmar que Aurélia simboliza a grande vitória da mulher na obra de José de
Alencar pois tem a oportunidade de optar por aquilo que antes lhe era imposto (
marido e casamento ).
Aurélia ocupava uma posição
privilegiada na sociedade, pois, no século XIX a riqueza era ( parece que ainda
é ) a primeira medida de valor. Na posse do dinheiro, a personagem pôde
satisfazer todos os seus caprichos com facilidade.
O intelectualismo, a
superioridade de Aurélia, estabelece uma barreira entre ela e Seixas.
E interessante é que o
dinheiro consegue inverter a posição da mulher em Aurélia e a posição de homem
em Seixas.
Aurélia sendo pobre, usa dos
estratagemas permitidos pelos costumes sociais da época para conseguir um
marido, uma vez que ter um marido, era a medida de segurança para uma mulher.
Nesse momento da narrativa,
Aurélia dá mostras de emancipação, comportando-se de modo diferente em relação
à mulher da época. Sua ambição é ser amada. Não deseja alcançar um homem
através de um casamento forçado. Este gesto de Aurélia afigura-se-nos incomum
por parte da protagonista que tendo a oportunidade de ter nas mãos o homem que
ama e podendo prendê-lo por obrigações morais, pelo contrário, abre mão dos
direitos convencionais de noiva, porque desejava que o gesto do casamento fosse
espontâneo.
Analisando as regras que
regiam a sociedade de então podemos notar que para uma mulher moldada ao gosto
patriarcal, Aurélia, ao se dar ao luxo de mostrar-se
orgulhosa nessa situação, rompe com uma série de tabus e
preconceitos, reafirmando sua auto-suficiência, mesmo sendo uma mulher.
Na sociedade patriarcal, vigente no
século XIX, um homem rico que se unia à uma moça pobre apresentava motivos para
lisonjear a mulher escolhida e a si mesmo pois, um homem rico, ao se tornar
generoso para com a moça pobre, permanecia grande e superior.
Na situação do
romance temos um quadro totalmente contrário às leis vigentes na época.
Aurélia, numa atitude de falsa generosidade - seu objectivo era de vingança –
compra um marido. Gesto que, ao contrário de lisonjear o homem escolhido o
diminuía e o rebaixava. E curioso é que esse gesto também diminuía a mulher
pois, na época, um homem que tivesse sido humilhado em sua masculinidade não
permitia também que a mulher se realizasse em sua feminilidade.
Temos então, uma inversão
normal dos padrões da época onde uma mulher nunca opinava com relação ao
marido, o qual o pai era quem geralmente escolhia, quanto mais chegar ao ponto
dela mesma realizar o negócio.
Podemos, então,
concluir que, de facto, Aurélia foi uma mulher à frente de seu tempo, pois foi
uma mulher sem medo da sociedade e disposta a se impor em toda sua essência.
Aurélia afigura-se como uma mulher “avançada” para sua época e para a cidade em
que vivia. Uma mulher capaz de pagar com a mesma moeda o mal que lhe tinha sido
causado pelo amante fazendo com que este se ajoelhasse a seus pés: “Seixas
ajoelhou aos pés da noiva .” ( Alencar, 2004, p. 54).
Conclusão
Ao
longo do trabalho percebemos que no século XIX a mulher não gozava de muitos
estatutos em relação ao homem. O casamento era a única porta para uma vida
fácil e respeitável e não é por acaso que tanto Lúcia como Aurélia almejaram
esse sonho. Já na época se dizia que era melhor qualquer casamento do que
nenhum, mostrando dessa forma a importância do casamento.
Tudo
isso porque a Mulher sempre teve na sociedade um papel de submissão e de
inferioridade em relação ao homem.
Vejamos:
As
mulheres brasileiras do século XIX viviam sob um regime patriarcal e limitadas
a uma vida doméstica. Não se notava a autonomia da mulher. Dentro da família
quem mandava era o homem.
Nestes aspectos, a
literatura mundial e, especificamente, a brasileira, através de autores
literários, em especial Alencar, rompeu as barreiras do universo feminino,
procurando desmistificar este papel.
Na
poesia romântica percebemos que os autores românticos rectratavam esse drama
humano que envolvia a mulher, escrevendo sobre amores trágicos e os seus
desejos.
Na
prosa o público da época preferia um romance que tivesse uma história
sentimental, com alguma surpresa e desfecho feliz. Como sempre, a mulher fazia
parte deste enredo. Neste aspecto, Lúcia e Senhora servem muito
bem de exemplos. Para conseguirem a vitória sobre o amor tiveram que lutar
contra tudo e todos.
Mesmo
na dramaturgia a mulher era apresentada como aquela que simbolizava o
sofrimento e o ser mais fraco. Aquela sobre quem o homem tinha domínio.
Lúcia e
Aurélia, protagonistas e ferramentas chave do presente trabalho, ousaram romper
com este papel. E por terem agido dessa forma, enfrentaram os tabus para a
época em que viveram.
Ao
criar duas personagens fortes e distintas, Alencar, com uma visão ampla da
sociedade e do ser humano, reflectiu as contradições do novo mundo romântico
pois retratou a realidade feminina vivida no século XIX e tentou buscar o
verdadeiro papel da mulher no todo que as envolve: A mulher que é capaz de
lutar para alcançar a tão esperada realização pessoal. mulher no todo que as
envolve: A mulher que é capaz de lutar para alcançar a tão esperada realização
pessoal.
Podemos então afirmar que
Alencar é o pioneiro, no que diz respeito à Literatura Brasileira, em
representar a mulher capaz de romper com preconceitos e lutar por sua liberdade
pessoal.
Aurélia,
como o próprio nome indica, representa o brilho e a glorificação da moral; é
edificada ao redor da ideia de que, nas camadas populares, ainda não
contagiadas pelas normas e hábitos burgueses, residem a alma e o espírito
puros, a honradez e integridade de carácter. Aurélia foi uma menina órfã, que
ao receber uma herança, passou por mudanças rápidas em seu viver e atitudes,
mas “não porém no carácter nem nos sentimentos.” ( Alencar, 2004).
Aurélia
foi uma mulher autónoma em todos os aspectos de sua vida. Comprou, humilhou e
recompensou, no final, o homem que amava. O que não aconteceu quando era pobre.
Ou seja, ela só conseguiu autonomia a partir do momento em que se tornou rica,
mostrando que a sociedade dava maior atenção aos bens económicos.
Numa sociedade onde o homem é quem dominava e subjugava a
mulher, Aurélia conseguiu inverter esse papel. Dominou, subjugou e humilhou
Seixas.
Cremos ser lógico afirmar que Aurélia foi uma mulher forte
que esteve à frente de sua época uma vez que, agindo dessa forma, contrariou as
leis que regiam a sociedade de então.
É incrível que quando
analisamos a vida de Aurélia quando era pobre, verificamos que o seu
comportamento exemplifica os modelos perfeitos para uma mulher do século XIX (
sempre em casa, cuidando da família, prudente e discreta) mas, quando a
analisamos nos bastidores da sua vida na sociedade torna-se claro concluir que
ela teve, de facto, uma comportamento distinto das demais mulheres de sua
época.
Podemos
concluir que ambas as protagonistas Aurélia e Lúcia lutaram unicamente para, no
final da história terem ao seu lado uma figura masculina, tendo ocupado um
lugar de destaque nas respectivas obras, pois todos os acontecimentos giram à
volta dessas mulheres destemidas.
Do nosso ponto de vista
podemos concluir que Alencar soube valorizar a mulher elevando a alma feminina
em Lucíola e Senhora.
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