quinta-feira, 11 de agosto de 2016

O Espaço dado à mulher no início do século XIX

Para percebermos melhor o papel que Lucíola e Aurélia desempenharam nos respectivos romances, é bom lembrarmos que até os princípios do século XIX, não se cultivava, como já se fazia na Europa, o costume da rua e dos salões, dentro da família brasileira, mesmo aquela citadina. O quadro era bem diferente no Brasil. O que caracterizava a família era exactamente a sua absoluta reclusão, em especial no que toca à mulher.
Este facto é comprovado numa carta, datada desta época, onde um jovem esboça o perfil de sua noiva ao pai, ressaltando o que se considerava serem as principais qualidades de uma jovem distinta: “(…) não é rigorista de modas; não sabe dançar nem tocar; não serve de ornato à janela com leque e com o lenço, não sabe tomar visitas nas salas...”
Afinal, verificamos que o que se esperava da então dita “rainha do lar” é que se devotasse com muita paixão às diferentes actividades que faziam parte do seu governo doméstico a ponto de não lhe sobrar tempo ou mesmo vontade de servir de “ornato às janelas”.
Este facto começa a alterar-se a partir da cidade do Rio de Janeiro, a corte do regente D. João VI e depois dos imperadores Pedro I e II. A partir desta altura, as mulheres brasileiras, europeizando-se, começaram a aparecer pela primeira vez diante de estranhos e os salões dos sobrados anteriormente sempre fechados eram abertos para as chamadas reuniões “burguesas”, onde passavam a ser projectados importantes negócios e alianças políticas.
Convém ressaltar que nestas ditas reuniões de negócios, já se começava a reclamar um novo tipo de comportamento às donas de casa que, diga-se de passagem, estivera até então restrita à esfera doméstica.
A partir deste momento, percebemos que a imagem da mulher começa a pesar e muito na direcção das pretensões econômicas ou políticas do marido uma vez que a sua postura diante dos convidados, sua aparência, suas jóias, seus vestidos, seu modo de receber e de se insinuar junto às grandes personalidades, assim o exigiam.
Assim sendo, a mulher que outrora se escondia dentro de casa para não ser vista por visitantes masculinos, começa a adaptar-se a esta nova representação de convívio em sociedade uma vez que agora a própria sociedade exigia que ela abandonasse o isolamento em proveito de uma atitude precisamente oposta. Interessante é que, finalmente, é concedida à mulher a permissão para sair às ruas.
notadas.
Este facto começa a alterar-se a partir da cidade do Rio de Janeiro, a corte do regente D. João VI e depois dos imperadores Pedro I e II. A partir desta altura, as mulheres brasileiras, europeizando-se, começaram a aparecer pela primeira vez diante de estranhos e os salões dos sobrados anteriormente sempre fechados eram abertos para as chamadas reuniões “burguesas”, onde passavam a ser projectados importantes negócios e alianças políticas.
Convém ressaltar que nestas ditas reuniões de negócios, já se começava a reclamar um novo tipo de comportamento às donas de casa que, diga-se de passagem, estivera até então restrita à esfera doméstica.
A partir deste momento, percebemos que a imagem da mulher começa a pesar e muito na direcção das pretensões económicas ou políticas do marido uma vez que a sua postura diante dos convidados, sua aparência, suas jóias, seus vestidos, seu modo de receber e de se insinuar junto às grandes personalidades, assim o exigiam.
Assim sendo, a mulher que outrora se escondia dentro de casa para não ser vista por visitantes masculinos, começa a adaptar-se a esta nova representação de convívio em sociedade uma vez que agora a própria sociedade exigia que ela abandonasse o isolamento em proveito de uma atitude precisamente oposta. Interessante é que, finalmente, é concedida à mulher a permissão para sair às ruas.
A partir desse quadro podemos, então, afirmar, que é este tipo de mulher, digamos, carnal, esta “mulher de salão”, esta “mulher da rua”, esta mulher que inclusive lê romances, ( Lúcia, por exemplo, gostava de ler “A Dama das Caméliase Aurélia “Shakespeare”) o modelo local que possivelmente teria inspirado os primeiros romances urbanos brasileiros e, entre as quais, destacamos Lucíola e Senhora.

3.3- A escolha de José de Alencar pela temática da mulher
Das pesquisas feitas descobrimos que Alencar, desde criança, apresentou um grande interesse pelo universo feminino. É o próprio autor a afirmar, em sua obra Como e porque sou romancista, que era ele quem fazia as leituras em sua casa para um público basicamente feminino: mãe, tia e visitas. O autor fala sobre como as mulheres se emocionavam com as leituras que ele fazia dos romances e como era impressionante a forma como elas se envolviam nas histórias apresentadas.
Alencar diz ser esta experiência que, provavelmente, lhe terá despertado o interesse pelos romances, daí vir mais tarde a tornar-se um escritor: “Foi essa leitura contínua e repetida de novelas e romances que primeiro imprimiu em meu espírito a tendência para essa forma literária que é entre todas a de minha predileção.” (Alencar, 2005, p. 29)
Inferimos, quando Alencar afirma - ser ele o leitor oficial da família - que as mulheres brasileiras no início do século XIX ainda não tinham adoptado a prática da leitura, até porque, no período, era bastante reduzido o número de mulheres alfabetizadas, no entanto, podemos notar que elas já apresentavam um grande interesse pelas histórias dos romances.
É importante destacarmos que a chegada dos romances ao Brasil foi um dos factores que contribuiu para desenvolver nas mulheres o hábito da leitura.
Pensamos ser correcto dizer que a inteligência e a refinada educação das personagens de Alencar faziam delas mulheres à frente de seu tempo. No entanto, devemos destacar que isso não fazia delas mulheres contrárias ao casamento ou mesmo insubmissas aos maridos. Tais personagens podiam ser tomadas como modelos ideais de donas de casa, prontas para assumirem o papel de mãe e de esposa.
O amor continua sendo para elas o ideal de felicidade e o casamento a concretização dessa felicidade. Elas se sujeitam aos seus amados não por medo ou por obrigação, mas por amor.
Podemos ver que a educação e a inteligência da personagem não fazem com que ela deixe de lado as prendas domésticas, ao contrário, por ser prendada, ela se torna ainda mais admirável e virtuosa aos olhos do narrador.
As heroínas românticas, representam, para o futuro esposo, duas funções básicas: a primeira seria a de objecto de prazer, daí o destaque dado à beleza dessas personagens; e a segunda é o da organização familiar — é ela quem vai cuidar da casa e dos filhos para que ele possa cumprir suas obrigações fora do ambiente doméstico — daí elas serem representadas como mulheres virtuosas e prendadas.

4.2- Aurélia: uma mulher à frente de sua época
Em Senhora, Alencar cria, à semelhança de Lucíola, uma heroína, também ela com traços de carácter ambíguos, à partida.
Esta constatação baseou-se na análise da personalidade da protagonista da obra.
Podemos perceber, na personagem, uma mistura de boa e má, anjo e demónio, Bela e Fera. Exemplifiquemos com alguns trechos da obra as qualidades de boa, anjo, fera e demónio, respectivamente:

Corria então Aurélia a consolá-lo. Sabia ela já a causa daquele pranto, cuja explicação uma vez lhe arrancara à força de carinho e meiguice. Tirava-o do desespero, animava-o a tentar a operação, e para suster-lhe os esforços ia auxiliando-lhe a memória e dirigindo o cálculo. ( Alencar, 2004, p. 61)

Observamos que Aurélia, construída de acordo com a concepção romântica e, por isso mesmo, conservando e difundindo o mito da beleza e pureza, oscila entre a passividade servil e as atitudes de reivindicação, agindo sobre o universo masculino de modo a fazê-lo, de certa forma, satisfazer suas exigências e anseios:

“Soltando estas palavras com pasmosa volubilidade, que parecia indicar o requinte da imprudência, Fernando sentou-se outra vez defronte da mulher.
- Espero suas ordens.
- Oh! Sim, deixe-me! Exclamou Aurélia. O senhor me causa horror.” ( Alencar, 2004, p. 86).

É necessário salientar a importância que Alencar concede à mulher, apresentando a sua capacidade de expor as suas qualidades femininas de conquista ao homem amado.
Podemos, então, afirmar que Aurélia simboliza a grande vitória da mulher na obra de José de Alencar pois tem a oportunidade de optar por aquilo que antes lhe era imposto ( marido e casamento ).
Aurélia ocupava uma posição privilegiada na sociedade, pois, no século XIX a riqueza era ( parece que ainda é ) a primeira medida de valor. Na posse do dinheiro, a personagem pôde satisfazer todos os seus caprichos com facilidade.
O intelectualismo, a superioridade de Aurélia, estabelece uma barreira entre ela e Seixas.
E interessante é que o dinheiro consegue inverter a posição da mulher em Aurélia e a posição de homem em Seixas.
Aurélia sendo pobre, usa dos estratagemas permitidos pelos costumes sociais da época para conseguir um marido, uma vez que ter um marido, era a medida de segurança para uma mulher.
Nesse momento da narrativa, Aurélia dá mostras de emancipação, comportando-se de modo diferente em relação à mulher da época. Sua ambição é ser amada. Não deseja alcançar um homem através de um casamento forçado. Este gesto de Aurélia afigura-se-nos incomum por parte da protagonista que tendo a oportunidade de ter nas mãos o homem que ama e podendo prendê-lo por obrigações morais, pelo contrário, abre mão dos direitos convencionais de noiva, porque desejava que o gesto do casamento fosse espontâneo.
Analisando as regras que regiam a sociedade de então podemos notar que para uma mulher moldada ao gosto patriarcal, Aurélia, ao se dar ao luxo de mostrar-se
orgulhosa nessa situação, rompe com uma série de tabus e preconceitos, reafirmando sua auto-suficiência, mesmo sendo uma mulher.
            Na sociedade patriarcal, vigente no século XIX, um homem rico que se unia à uma moça pobre apresentava motivos para lisonjear a mulher escolhida e a si mesmo pois, um homem rico, ao se tornar generoso para com a moça pobre, permanecia grande e superior.
Na situação do romance temos um quadro totalmente contrário às leis vigentes na época. Aurélia, numa atitude de falsa generosidade - seu objectivo era de vingança – compra um marido. Gesto que, ao contrário de lisonjear o homem escolhido o diminuía e o rebaixava. E curioso é que esse gesto também diminuía a mulher pois, na época, um homem que tivesse sido humilhado em sua masculinidade não permitia também que a mulher se realizasse em sua feminilidade.
Temos então, uma inversão normal dos padrões da época onde uma mulher nunca opinava com relação ao marido, o qual o pai era quem geralmente escolhia, quanto mais chegar ao ponto dela mesma realizar o negócio.
Podemos, então, concluir que, de facto, Aurélia foi uma mulher à frente de seu tempo, pois foi uma mulher sem medo da sociedade e disposta a se impor em toda sua essência. Aurélia afigura-se como uma mulher “avançada” para sua época e para a cidade em que vivia. Uma mulher capaz de pagar com a mesma moeda o mal que lhe tinha sido causado pelo amante fazendo com que este se ajoelhasse a seus pés: “Seixas ajoelhou aos pés da noiva .” ( Alencar, 2004, p. 54).

Conclusão
Ao longo do trabalho percebemos que no século XIX a mulher não gozava de muitos estatutos em relação ao homem. O casamento era a única porta para uma vida fácil e respeitável e não é por acaso que tanto Lúcia como Aurélia almejaram esse sonho. Já na época se dizia que era melhor qualquer casamento do que nenhum, mostrando dessa forma a importância do casamento.
Tudo isso porque a Mulher sempre teve na sociedade um papel de submissão e de inferioridade em relação ao homem.
Vejamos:
As mulheres brasileiras do século XIX viviam sob um regime patriarcal e limitadas a uma vida doméstica. Não se notava a autonomia da mulher. Dentro da família quem mandava era o homem.
Nestes aspectos, a literatura mundial e, especificamente, a brasileira, através de autores literários, em especial Alencar, rompeu as barreiras do universo feminino, procurando desmistificar este papel.
Na poesia romântica percebemos que os autores românticos rectratavam esse drama humano que envolvia a mulher, escrevendo sobre amores trágicos e os seus desejos.
Na prosa o público da época preferia um romance que tivesse uma história sentimental, com alguma surpresa e desfecho feliz. Como sempre, a mulher fazia parte deste enredo. Neste aspecto, Lúcia e Senhora servem muito bem de exemplos. Para conseguirem a vitória sobre o amor tiveram que lutar contra tudo e todos.
Mesmo na dramaturgia a mulher era apresentada como aquela que simbolizava o sofrimento e o ser mais fraco. Aquela sobre quem o homem tinha domínio.
Lúcia e Aurélia, protagonistas e ferramentas chave do presente trabalho, ousaram romper com este papel. E por terem agido dessa forma, enfrentaram os tabus para a época em que viveram.
Ao criar duas personagens fortes e distintas, Alencar, com uma visão ampla da sociedade e do ser humano, reflectiu as contradições do novo mundo romântico pois retratou a realidade feminina vivida no século XIX e tentou buscar o verdadeiro papel da mulher no todo que as envolve: A mulher que é capaz de lutar para alcançar a tão esperada realização pessoal. mulher no todo que as envolve: A mulher que é capaz de lutar para alcançar a tão esperada realização pessoal.
Podemos então afirmar que Alencar é o pioneiro, no que diz respeito à Literatura Brasileira, em representar a mulher capaz de romper com preconceitos e lutar por sua liberdade pessoal.
Aurélia, como o próprio nome indica, representa o brilho e a glorificação da moral; é edificada ao redor da ideia de que, nas camadas populares, ainda não contagiadas pelas normas e hábitos burgueses, residem a alma e o espírito puros, a honradez e integridade de carácter. Aurélia foi uma menina órfã, que ao receber uma herança, passou por mudanças rápidas em seu viver e atitudes, mas “não porém no carácter nem nos sentimentos.” ( Alencar, 2004).
Aurélia foi uma mulher autónoma em todos os aspectos de sua vida. Comprou, humilhou e recompensou, no final, o homem que amava. O que não aconteceu quando era pobre. Ou seja, ela só conseguiu autonomia a partir do momento em que se tornou rica, mostrando que a sociedade dava maior atenção aos bens económicos.
Numa sociedade onde o homem é quem dominava e subjugava a mulher, Aurélia conseguiu inverter esse papel. Dominou, subjugou e humilhou Seixas.
Cremos ser lógico afirmar que Aurélia foi uma mulher forte que esteve à frente de sua época uma vez que, agindo dessa forma, contrariou as leis que regiam a sociedade de então.
É incrível que quando analisamos a vida de Aurélia quando era pobre, verificamos que o seu comportamento exemplifica os modelos perfeitos para uma mulher do século XIX ( sempre em casa, cuidando da família, prudente e discreta) mas, quando a analisamos nos bastidores da sua vida na sociedade torna-se claro concluir que ela teve, de facto, uma comportamento distinto das demais mulheres de sua época.
Podemos concluir que ambas as protagonistas Aurélia e Lúcia lutaram unicamente para, no final da história terem ao seu lado uma figura masculina, tendo ocupado um lugar de destaque nas respectivas obras, pois todos os acontecimentos giram à volta dessas mulheres destemidas.

Do nosso ponto de vista podemos concluir que Alencar soube valorizar a mulher elevando a alma feminina em Lucíola e Senhora.

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