sexta-feira, 22 de maio de 2015

O PODER DAS PALAVRAS


A ERA VARGAS

A Era Vargas, teve início com a Revolução de 1930 onde expulsou do poder a oligarquia cafeeira, dividindo-se em três momentos:
  • Governo Provisório -1930-1934
  • Governo Constitucional – 1934-1937
  • Estado Novo – 1937-1945

Revolução de 1930

Até o ano de 1930 vigorava no Brasil a República Velha, conhecida hoje como o primeiro período republicano brasileiro. Como característica principal centralizava o poder entre os partidos políticos e a conhecida aliança política "café-com-leite" (entre São Paulo e Minas Gerais), a República Velha tinha como base a economia cafeeira e, portanto, mantinha fortes vínculos com grandes proprietários de terras.
De acordo com as políticas do "café-com-leite", existia um revezamento entre os presidentes apoiados pelo Partido Republicano Paulista (PRP), de São Paulo, e o Partido Republicano Mineiro (PRM), de Minas Gerais. Os presidentes de um partido eram influenciados pelo outro partido, assim, dizia-se: nada mais conservador, que um liberal no poder.

O Golpe do Exército

Em março de 1930, foram realizadas as eleições para presidente da República.  Eleição esta que deu a vitória ao candidato governista Júlio Prestes. Entretanto, Prestes não tomou posse. A Aliança Liberal (nome dado aos aliados mineiros, gaúchos, e paraibanos) recusou-se a aceitar a validade das eleições, alegando que a vitória de Júlio Prestes era decorrente de fraude. Além disso, deputados eleitos em estados onde a Aliança Liberal conseguiu a vitória, não tiveram o reconhecimento dos seus mandatos. Os estados aliados, principalmente o Rio Grande do Sul planejam então, uma revolta armada.  A situação acaba agravando-se ainda mais quando o candidato à vice-presidente de Getúlio Vargas, João Pessoa, é assassinado em Recife, capital de Pernambuco. Como os motivos dessa morte foram duvidosos a propaganda getulista aproveitou-se disso para usá-la em seu favor, atribuindo a culpa à oposição, além da crise econômica acentuada pela crise de 1929; a indignação, deste modo, aumentou, e o Exército – que por sua vez era desfavorável ao governo vigente desde o tenentismo – começou a se mobilizar e formou uma junta governamental composta por generais do Exército. No mês seguinte, em três de novembro, Júlio Prestes foi deposto e fugiu junto com Washington Luís e o poder então foi passado para Getúlio Vargas pondo fim à República Velha.

Governo provisório (1930 - 1934)

O Governo Provisório teve como objetivo reorganizar a vida política do país. Neste período, o presidente Getúlio Vargas deu início ao processo de centralização do poder, eliminando os órgãos legislativos (federal, estadual e municipal).
Diante da importância que os militares tiveram na estabilização da Revolução de 30, os primeiros anos da Era Vargas foram marcados pela presença dos “tenentes” nos principais cargos do governo e por esta razão foram designados representantes do governo para assumirem o controle dos estados, tal medida tinha como finalidade anular a ação dos antigos coronéis e sua influência política regional.
Esta medida consolidou-se em clima de tensão entre as velhas oligarquias e os militares interventores. A oposição às ambições centralizadoras de Vargas concentrou-se em São Paulo, onde as oligarquias locais, sob o apelo da autonomia política e um discurso de conteúdo regionalista, convocaram o “povo paulistano” a lutar contra o governo Getúlio Vargas, exigindo a realização de eleições para a elaboração de uma Assembléia Constituinte. A partir desse movimento, teve origem a chamada Revolução Constitucionalista de 1932.
Mesmo derrotando as forças oposicionistas, o presidente convocou eleições para a Constituinte. No processo eleitoral, devido o desgaste gerado pelos conflitos paulistas, as principais figuras militares do governo perderam espaço político e, em 1934 uma nova constituição foi promulgada.
A Carta de 1934 deu maiores poderes ao poder executivo, adotou medidas democráticas e criou as bases da legislação trabalhista. Além disso, sancionou o voto secreto e o voto feminino. Por meio dessa resolução e o apoio da maioria do Congresso, Vargas garantiu mais um mandato.

Governo Constitucional (1934 – 1937)

Nesse segundo mandato, conhecido como Governo Constitucional, a altercação política se deu em volta de dois ideais primordiais: o fascista – conjunto de ideias e preceitos político-sociais totalitário introduzidos na Itália por Mussolini –, defendido pela Ação Integralista Brasileira (AIB), e o democrático, representado pela Aliança Nacional Libertadora (ANL), era favorável à reforma agrária, a luta contra o imperialismo e a revolução por meio da luta de classes.
A ANL aproveitando-se desse espírito revolucionário e com as orientações dos altos escalões do comunismo soviético, promoveu uma tentativa de golpe contra o governo de Getúlio Vargas. Em 1935, alguns comunistas brasileiros iniciaram revoltas dentro de instituições militares nas cidades de Natal (RN), Rio de Janeiro (RJ) e Recife (PE).    Devido à falha de articulação e adesão de outros estados, a chamada Intentona Comunista, foi facilmente controlada pelo governo.
Getúlio Vargas, no entanto, cultivava uma política de centralização do poder e, após a experiência frustrada de golpe por parte da esquerda utilizou-se do episódio para declarar estado de sítio, com essa medida, Vargas, perseguiu seus oponentes e desarticulou o movimento comunista brasileiro. Mediante a “ameaça comunista”, Getúlio Vargas conseguiu anular a nova eleição presidencial que deveria acontecer em 1937. Anunciando outra calamitosa tentativa de golpe comunista, conhecida como Plano Cohen, Getúlio Vargas anulou a constituição de 1934 e dissolveu o Poder Legislativo. A partir daquele ano, Getúlio passou a governar com amplos poderes, inaugurando o chamado Estado Novo.

Estado Novo (1937 – 1945)

No dia 10 de novembro de 1937, era anunciado em cadeia de rádio pelo  presidente Getúlio Vargas o Estado Novo. Tinha início então, um período de ditadura na História do Brasil.
Sob o pretexto da existência de um plano comunista para a tomada do poder (Plano Cohen) Vargas fechou o Congresso Nacional e impôs ao país uma nova Constituição, que ficaria conhecida depois como "Polaca" por ter sido inspirada na Constituição da Polônia, de tendência fascista.
O Golpe de Getúlio Vargas foi organizado junto aos militares e teve o apoio de grande parcela da sociedade, uma vez que desde o final de 1935 o governo reforçava sua propaganda anti comunista, alarmando a classe média, na verdade preparando-a para apoiar a centralização política que desde então se desencadeava. A partir de novembro de 1937 Vargas impôs a censura aos meios de comunicação, reprimiu a atividade política, perseguiu e prendeu seus inimigos políticos, adotou medidas econômicas nacionalizantes e deu continuidade a sua política trabalhista com a criação da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), publicou o Código Penal e o Código de Processo Penal, todos em vigor atualmente. Getúlio Vargas foi responsável também pelas concepções da Carteira de Trabalho, da Justiça do Trabalho, do salário mínimo, e pelo descanso semanal remunerado.
O principal acontecimento na política externa foi a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial contra os países do Eixo, fato este, responsável pela grande contradição do governo Vargas, que dependia economicamente dos EUA e possuía uma política semelhante à alemã.  A derrota das nações nazi fascistas foi a brecha que surgiu para o crescimento da oposição ao governo de Vargas. Assim, a batalha pela democratização do país ganhou força. O governo foi obrigado a indultar os presos políticos, além de constituir eleições gerais, que foram vencidas pelo candidato oficial, isto é, apoiado pelo governo, o general Eurico Gaspar Dutra.
Chegava ao fim a Era Vargas, mas não o fim de Getúlio Vargas, que em 1951 retornaria à presidência pelo voto popular.

Constituição de 1934

A Constituição de 1934 foi uma consequência direta da Revolução Constitucionalista de 1932. Com o fim da Revolução, a questão do regime político veio à tona, forçando desta forma as eleições para a Assembléia Constituinte em maio de 1933, que aprovou a nova Constituição substituindo a Constituição de 1891.
O objetivo da Constituição de 1934 era o de melhorar as condições de vida da grande maioria dos brasileiros, criando leis sobre educação, trabalho, saúde e cultura. Ampliando o direito de cidadania dos brasileiros, possibilitando a grande fatia da população, que até então era marginalizada do processo político do Brasil, participar então desse processo. A Constituição de 34 na realidade trouxe, portanto, uma perspectiva de mudanças na vida de grande parte dos brasileiros.
No dia seguinte à promulgação da nova Carta, Getúlio Vargas foi eleito presidente do Brasil. 

São características da Constituição de 1934: 

1- A manutenção dos princípios básicos da carta anterior, ou seja, o Brasil continuava sendo uma república dentro dos princípios federativos, ainda que o grau de autonomia dos estados fosse reduzido; 
2 – A dissociação dos poderes, com independência do executivo, legislativo e judiciário; além da eleição direta de todos os membros dos dois primeiros. O Código eleitoral formulado para a eleição da Constituinte foi incorporado à Constituição; 
3 – A criação do Tribunal do Trabalho e respectiva legislação trabalhista, incluindo o direito à liberdade de organização sindical; 
4- A possibilidade de nacionalizar empresas estrangeiras e de determinar o monopólio estatal sobre determinadas indústrias; 
5- As disposições transitórias estabelecendo que o primeiro presidente da República fosse eleito pelo voto indireto da Assembléia Constituinte. 
A Constituição de 1934 também cuidou dos direitos culturais, aprovando os seguintes princípios, entre outros: 

  • O direito de todos à educação, com a determinação de que esta desenvolvesse a consciência da solidariedade humana;
  • A obrigatoriedade e gratuidade do ensino primário, inclusive para os adultos, e intenção à gratuidade do ensino imediato ao primário;
  • O ensino religioso facultativo, respeitando a crença do aluno;
  • A liberdade de ensinar e garantia da cátedra.

A Constituição de 1934 ainda garante ao cidadão:
  • Que a lei não prejudicaria o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada; 
  • O principio da igualdade perante a lei, instituindo que não haveria privilégios, nem distinções, por motivo de nascimento, sexo, raça, profissão própria ou dos pais, riqueza, classe social, crença religiosa ou ideias políticas; 
  • A aquisição de personalidade jurídica, pelas associações religiosas, e introduziu a assistência religiosa facultativa nos estabelecimentos oficiais; 
  • A obrigatoriedade de comunicação imediata de qualquer prisão ou detenção ao juiz competente para que a relaxasse e, se ilegal. requerer a responsabilidade da autoridade co-autora; 
  • O habeas-corpus, para proteção da liberdade pessoal, e estabeleceu o mandado de segurança, para defesa do direito, certo e incontestável, ameaçado ou violado por ato inconstitucional ou ilegal de qualquer autoridade; 
  • A proibição da pena de caráter perpétuo; 
  • O impedimento da prisão por dívidas, multas ou custas; 
  • A extradição de estrangeiro por crime político ou de opinião e, em qualquer caso, a de brasileiros; 
  • A assistência judiciária para os desprovidos financeiramente; 
  • Que as  autoridades a emitam certidões requeridas, para defesa de direitos individuais ou para esclarecimento dos cidadãos a respeito dos negócios públicos; 
  • A isenção de impostos ao escritor, jornalista e ao professor; 
  • Que a todo cidadão legitimidade para pleitear a declaração de utilidade ou anulação dos atos lesivos do patrimônio da União, dos Estados ou dos Municípios;
  • A proibição de diferença de salário para um mesmo trabalho, por motivo de idade, sexo, nacionalidade ou estado civil;
  • Receber um salário mínimo capaz de satisfazer à necessidades normais do trabalhador;
  •  A limitação do trabalho a oito horas diárias, só prorrogáveis nos casos previstos pela lei;
  • A proibição de trabalho a menores de 14 anos, de trabalho noturno a menores de 16 anos e em indústrias insalubres a menores de 18 anos e a mulheres;
  • A regulamentação do exercício de todas as profissões.
A Constituição de 1934 representou o início de uma nova fase na vida do país, entretanto vigorou por pouco tempo, até a introdução do Estado Novo, em 10 de novembro de 1937, sendo substituída  pela Constituição de 1937.

Intentona Comunista

A Intentona Comunista também conhecida como Revolta Vermelha de 35 ou Levante Comunista, foi uma tentativa de golpe contra o governo de Getúlio Vargas. Foi liderada pelo Partido Comunista Brasileiro em nome da Aliança Nacional Libertadora, ocorreu em novembro de 1935, e foi rapidamente combatida pelas Forças de Segurança Nacional.
Entusiasmados pela composição política europeia pós primeira guerra mundial, na qual duas frentes disputavam espaço (Fascismo e Comunismo) surgiram dois movimentos políticos no Brasil com estas mesmas características.
Em 1932, sob o comando do político paulista Plínio Salgado foi fundada a Ação Integralista Nacional, de cunho fascista. De extrema direita, os integralistas combatiam com fervor o comunismo.
Paralelamente à campanha Integralista, o Partido Comunista Brasileiro (PCB) impulsionou a fundação da Aliança Nacional Libertadora, um movimento político radicalmente contrário à Ação Integralista Nacional.
A ANL, criada em 1935, defendia os ideais comunistas e suas propostas iam além daquelas defendidas pelo PCB, como:
  • O não pagamento da dívida externa;
  • A nacionalização das empresas estrangeiras;
  • O combate ao fascismo;
  • A reforma agrária;
No dia 5 de julho de 1935, data em que se celebravam os levantes Tenentistas, Luís Carlos Prestes lançou um manifesto de apoio à ANL, no qual incentivava uma revolução contra o governo. Este foi o estopim para que Getúlio Vargas decretasse a ilegalidade do movimento, além de mandar prender seus líderes.
Com o decreto de Getúlio Vargas, o plano de fazer uma revolução foi colocado em prática.
A ação foi planejada dentro dos quartéis e os militares simpatizantes ao movimento comunista deram início às rebeliões em novembro de 1935, em Natal, no Rio Grande do Norte, aonde os revolucionários chegaram a tomar o poder durante três dias. Em seguida se alastrou para o Maranhão, Recife e por último para o Rio de Janeiro, no dia 27.
Entretanto, os revolucionários falharam com relação à organização. As revoltas ocorreram em datas diferentes, o que facilitou as ações do governo para dominar a situação e frustrar o movimento.
A partir desse episódio, Vargas decretou estado de sítio e deu início a uma forte repressão aos envolvidos na Intentona Comunista. Luís Carlos Prestes foi preso, bem como vários líderes sindicais, militares e intelectuais também foram presos ou tiveram seus direitos cassados.
A ANL não conseguiu concretizar seus planos e a Intentona Comunista não desestabilizou o governo de Getúlio Vargas. O incidente comunista acabou sendo usado como desculpa, pois na época, o governo plantou a denúncia de um plano comunista - Plano Cohen - que ameaçava a ordem institucional, permitindo o golpe que originou o Estado Novo, em 1937.

terça-feira, 19 de maio de 2015

AS RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS E O SINCRETISMO

Durante o processo de colonização do Brasil, notamos que a utilização dos africanos como mão de obra escrava estabeleceu um amplo leque de novidades em nosso cenário religioso. Ao chegarem aqui, os escravos de várias regiões da África traziam consigo várias crenças que se modificaram no espaço colonial. De forma geral, o contato entre nações africanas diferentes empreendeu a troca e a difusão de um grande número de divindades.
Mediante essa situação, a Igreja Católica se colocava em um delicado dilema ao representar a religião oficial do espaço colonial. Em algumas situações, os clérigos tentavam reprimir as manifestações religiosas dos escravos e lhes impor o paradigma cristão. Em outras situações, preferiam fazer vista grossa aos cantos, batuques, danças e rezas ocorridas nas senzalas. Diversas vezes, os negros organizavam propositalmente suas manifestações em dias-santos ou durante outras festividades católicas.
Do ponto de vista dos representantes da elite colonial, a liberação das crenças religiosas africanas era interpretada positivamente. Ao manterem suas tradições religiosas, muitas nações africanas alimentavam as antigas rivalidades contra outros grupos de negros atingidos pela escravidão. Com a preservação desta hostilidade, a organização de fugas e levantes nas fazendas poderia diminuir sensivelmente.
Aparentemente, a participação dos negros nas manifestações de origem católica poderia representar a conversão religiosa dessas populações e a perda de sua identidade. Contudo, muitos escravos, mesmo se reconhecendo como cristãos, não abandonaram a fé nos orixás, voduns e inquices oriundos de sua terra natal. Ao longo do tempo, a coexistência das crendices abriu campo para que novas experiências religiosas – dotadas de elementos africanos, cristãos e indígenas – fossem estruturadas no Brasil.
É a partir dessa situação que podemos compreender porque vários santos católicos equivalem a determinadas divindades de origem africana. Além disso, podemos compreender como vários dos deuses africanos percorrem religiões distintas. Na atualidade, não é muito difícil conhecer alguém que professe uma determinada religião, mas que se simpatize ou também frequente outras.
Dessa forma, observamos que o desenvolvimento da cultura religiosa brasileira foi evidentemente marcado por uma série de negociações, trocas e incorporações. Nesse sentido, ao mesmo tempo em que podemos ver a presença de equivalências e proximidades entre os cultos africanos e as outras religiões estabelecidas no Brasil, também temos uma série de particularidades que definem várias diferenças. Por fim, o sincretismo religioso acabou articulando uma experiência cultural própria.
Não cabe dizer que o contato entre elas acabou designando um processo de aviltamento de religiões que aqui apareceram. Tanto do ponto de vista religioso, quanto em outros aspectos da nossa vida cotidiana, é possível observar que o diálogo entre os saberes abre espaço para diversas inovações. Por esta razão, é impossível acreditar que qualquer religião teria sido injustamente aviltada ou corrompida.
Por Rainer Sousa
Graduado em História

Cultura afrodescendente no Brasil

A maior população de origem africana fora do continente está no Brasil e, por conta disso, a cultura dos afrodescendentes é muito forte em todo o país, especialmente na região nordeste. A cultura brasileira se baseia, principalmente, nesta miscigenação de raças que vai dos afrodescendentes, passando pelos europeus e indígenas que aqui habitavam estas terras. A cultura afrodescendente no Brasil só foi liberada a partir de meados do século XIX, pois anteriormente eram proibidas todas as formas de manifestações, rituais e costumes dos africanos que aqui residiam.
Menina afrodescentende e bandeira do Brasil

A influência de cultura afrodescendente no Brasil

A cultura afrodescendente está presente em diversos pontos da cultura do Brasil, como música (o samba é sem dúvida alguma a principal influência na área da música. Contudo, não trouxeram apenas o samba para o Brasil como, também, o Maracatu, a Cavalhada, a Congada e até o Moçambique) e Capoeira – seu início foi para ser uma defesa e era ensinada aos negros cativos brasileiros pelos escravos africanos, como os senhores de engenho não permitiriam que eles treinassem e aprendessem uma luta, os passos e movimentos foram adaptados ao ritmo das músicas levando a entender que seria uma dança.
Capoeira
A culinária também não fica de fora, com diversos pratos que são postos à mesa todos os dias pelos brasileiros tem sua origem em solo africano. A principal delas é a feijoada que virou uma espécie de ícone nacional que teve sua origem nas senzalas e era preparada apenas com os restos de carnes que os senhores do engenho não comiam. Além da feijoada, a bala de coco, sarapatel, caruru, vatapá, o acarajé, entre outras comidas fazem parte da cultura afrodescendente no Brasil.
Dizer o continente africano é o que mais possui religiões, cultos e rituais diferentes poucas pessoas se negariam a contrariar, assim como falar que a religião brasileira sofre grande influência destas, principalmente, no candomblé e na umbanda.

A importância da cultura afrodescendente no Brasil

A cultura afrodescendente é muito importante para o Brasil, pois ajudou a formar a atual identidade do povo brasileiro. Foi desta maneira que deixamos de ser uma cópia de nossos colonizadores e passamos a aprender culturas novas e, inclusive, levá-las para fora do país. Atualmente, diversas culturas brasileiras são adoradas pelos povos estrangeiros como é o caso do nosso samba e de algumas receitas culinárias que tiveram origens na cultura afrodescendente e que aqui tornaram-se famosas.
Ilustração de escravos trabalhando
Claro que além disso, os afrodescendentes ajudam a construir este país – muito embora em uma grande parcela deste tempo como escravos -, contudo merecem todo o respeito pela importância que deram ao vir para cá, mesmo dessa maneira. É certo que ocorreram revoltas e, desta forma, conseguiram o seu espaço e contribuíram com a sua cultura em todos os momentos da vida dos brasileiros.

Pontos positivos da cultura afrodescendente no Brasil

Alguns pontos positivos podem ser percebidos claramente da presença da cultura afrodescendente no Brasil como é o fato das comidas, danças, música e, principalmente, em vários costumes que foram incorporados à cultura brasileira e, até mesmo, mundial.
Feijoada e acompanhamentos
A cultura afrodescendente no Brasil tem toda essa força devido ao fato da grande quantidade de escravos que aqui chegaram através dos navios negreiros, além da própria migração interna após a abolição da escravatura.

Congada: Festa folclórica une tradições africanas e ibéricas

congada é um evento que faz parte do folclore brasileiro. Trata-se de um desfile ou procissão que reúne elementos das tradições tribais de Angola e do Congo, com influências ibéricas no que se refere à religiosidade. Esse fenômeno cultural é conhecido como sincretismo religioso; entidades dos cultos africanos eram identificados aos santos do catolicismo. Assim, a Igreja, as autoridades e os senhores de engenho em geral aceitavam ou prestigiavam a solenidade.

Animada por danças, cantos e música, a procissão acabava numa igreja (em geral, as de irmandades de negros, como Nossa Senhora do Rosário) onde, com a presença de uma corte e seus vassalos, acontecia a cerimônia de coroação do Rei Congo e da Rainha Ginga de Angola - uma personagem da história africana, a Rainha Njinga Nbandi, do século 17. Esses autos, contudo, não existiram no território africano.
Padroeiros
As congadas atuais são originárias dessas coroações e ainda estão presentes em diversos estados de todo o Brasil. Realizadas de maneiras diversas e mescladas a outras festas, elas basicamente são compostas de desfiles teatrais, ao som de vários ritmos: embaixadas, desafios, repentes e maracatus. Têm como padroeiras Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e Santa Ifigênia.

Por isso, geralmente se apresentam nas festas desses santos ou ainda no mês de maio. Em Minas Gerais, realizam-se no mês de outubro, em homenagem a Nossa Senhora do Rosário. Seus participantes vestem-se de branco, com um saiote de fitas coloridas e o rosário de lágrimas a tiracolo, e dançam ao ritmo das caixas e dos chocalhos. Tanto em Minas como no Rio Grande do Sul, a Rainha Ginga desfila em procissão.
Nobreza negra
Os congos formam dois grupos: do Rei Congo e do embaixador da Rainha Ginga, o qual, por meio de diálogos, realiza as embaixadas. Figuram príncipes, ministros, o general da rainha e os figurantes com seus adornos multicoloridos que dançam e reproduzem o choque das armas conhecido como dança das espadas. As melodias são executadas por viola, cavaquinho, violão, reco-reco, pandeiro, bumbos, triângulo e sanfona.

Os temas teatrais do evento são a coroação dos reis de Congo, os préstitos e embaixadas, reminiscências de danças guerreiras, representativas de lutas, como a da Rainha de Angola, defensora da autonomia do seu reinado contra os portugueses. Essa personagem rivaliza constantemente com os chefes das tribos vizinhas, inclusive com o rei de Cariongo (Luanda).
Nossa Senhora do Rosário
Em Recife, a coroação dos reis do congo já era realizada na igreja de Nossa Senhora do Rosário (ou Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos), em 1674. Em certas ocasiões a festa alcançava esplendor pelo empréstimo de joias e adereços, cedidos pelas senhoras e senhores do engenho. Reunidos, os escravos e mestiços iam buscar o régio casal, levando-os à igreja onde eram coroados pelo vigário.

O cortejo executava coreografias, jogos de agilidade e de simulação guerreira, como a dança de espadas. Depois da coroação havia uma festa com baile, comidas e bebidas. As Irmandades de Nossa Senhora do Rosário ajudavam em todo o processo. Por vezes a imagem da santa era pintada de preto.

domingo, 17 de maio de 2015

TODOS CONTRA A HOMOFOBIA.
PRECONCEITO
Professor José Maria de Oliveira Junior
Todos nós sabemos que no mundo há grandes diferenças entre pessoas e que por ignorancia, cria-se o preconceito que gera muitos confllitos e desentendimentos, afetando muita gente. Porém, onde estão os Direitos humanos que dizem que todos nós somos iguais. Se há tanta desigualdade no nosso país?
Manchetes de jornais relatam: “Homem negro sofre racismo em loja”. “Mulheres recebem salários mais baixos que os homens”. “Rapaz homossexual é espancado na rua”. “Jovens de classe alta colocam fogo em mendigo”, e muitas outras barbaridades. Isso mostra que os governantes não estão fazendo sua parte.
Mas pequenos gestos do dia a dia como preferir descer do ônibus quando um negro entra nele, ou até mesmo não sentar ao seu lado no ônibus; sentar no lugar de idosos, gestantes e deficientes físicos, humilhar uma  pessoa por sua religião, opção sexual ou por terem profissões mais humildes, nos mostra que precisamos mudar.

A questão de etnia vem sendo discutida no mundo todo, inclusive no Brasil que é um país mestiço, onde ocorre a mistura principalmente de negros, brancos e indíos. Por mais que se diga que todos as pessoas são iguais, independentemente de cor de pele, o racismo continua.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Visão Filosófica da Ética

A ética é um dos ramos da filosofia, um dos principais. Tanto a palavra ética, quanto a palavra moral, querem dizer a mesma coisa: costumes. Só que a palavra ética vem da língua grega, e como os gregos antigos eram muito intelectualizados, essa palavra ganhou uma conotação teórica. E moral vem do latim, e como o povo romano era muito prático, essa palavra ganhou uma conotação prática. Mas etimologicamente querem dizer a mesma coisa. Em essência, é saber como o homem organiza sua vida baseada num costume atemporal com uma vestimenta temporal, própria de cada civilização. Aí entra o livre-arbítrio, que diz que o homem pode fazer qualquer coisa, desde que seja ético. A ética é o dharma, como chama os orientais. É a lei que rege o universo e o homem. O princípio ético diz que o homem deve ser íntegro, só que em cada época assume vestimentas diferentes. É a ética temporal. Hoje o conceito de ética temporal tenta negar o conceito de ética atemporal, colocando só como criação do homem. Há um ditado russo que diz que: “Há quem passe por uma floresta e só veja lenha para sua fogueira.” E assim, não ver a riqueza que é uma floresta. Platão fala que quando a gente não olha as pessoas mais com a nossa lanterninha, mas com o olhar iluminado pela luz do sol, que simboliza a idéia do bem, vai ver o que de melhor tem no outro, aí surge o homem ético. Como disse Jesus: “Amai-vos como eu vos amei. Já não mais vos chamo servo, por que o servo não sabe o que faz o seu senhor. Mas tenho vos chamado amigos. Por que tudo quanto eu aprendi com meu Pai, vos tenho dado a conhecer. Não há maior amor do que aquele que doa a vida pelo seu amigo.” Quando cometemos um erro, e a natureza faz com que a consciência desse erro se reflita em nós, devemos agradecer, pois deu-nos a possibilidade de aprender com o erro. A ação ética, segundo Aristóteles, tem que vim acompanhada de discernimento, próprio do homem livre. Platão diz que assim como numa sociedade onde tem muitos médicos é sinal que existem muitos doentes; numa sociedade onde existem muitas leis, é por que devem existir muitos infratores. Para Aristóteles, a virtude é fruto da liberdade. Quando vemos as leis que mantém o universo, e nos comprometemos a obedecê-la, tornamo-nos um pouco divino. São Tomás de Aquino, que se inspirou em Aristóteles, diz que o bem se fortalece, se potencia, na superação do mal. Vendo assim o mal por cima e não no mesmo nível, como uma águia, por isso diz na bíblia: “E sejais como uma águia.” Ele define ética como confiança no universo ordenado. Platão diz que o animal que está em nós, nasceu para ser conduzido e não para nos conduzir. René Descartes diz que o homem ético, de alma forte, confronta princípios versus paixões. Já o homem de alma fraca, confronta paixões versus paixões. Espinosa diz que os homens são diferentes em potências, mas não são diferentes em natureza. Platão diz que virtudes concedem poder, são meios, a pessoa adquire poder independente da finalidade, como a máfia, que tem uma finalidade ruim, mas tem virtudes, como a virtude da organização. Kant diz que através da virtude com um sentido de vida, isso lhe conduz a um lugar no universo, que o potencializa, mas lembre-se: com uma finalidade boa, um sentido de vida. Kant diz: “Age sempre de tal forma que a máxima de tua ação possa ser elevada a lei universal.” Nietzsche diz: “Aonde encontro uma criatura viva, encontro vontade de poder.” O ser humano tem na sua natureza essa vontade de poder, que deve ser direcionada para o bem. Nietzsche fala na moral do nobre, e na moral do escravo. A moral do nobre se realiza em si mesma, e a moral do escravo é a moral do ressentimento, tentando arrastar o outro para baixo. A moral do nobre em relação ao outro por pior visão que seja, tem uma visão de superioridade e de compaixão. Na moral do escravo tende-se a torna o outro pequeno, quando ver como inimigo, o transforma num monstro. Tem reação, e não ação. Tem uma frase de Nietzsche que diz: “Quanto mais me elevo, menor eu pareço aos olhos de quem não sabe voar.” Felicidade para a moral do escravo é a inércia e passividade, que ver como inimigo aquele que está em movimento, próprio do homem de moral nobre, que pensa em movimento, como disse Nietzsche. O escravo tem medo do confronto, já o super-homem nasce fruto do conflito. Por isso Nietzsche diz: “Para os meus amigos, meus verdadeiramente amigos, todas as dificuldades do mundo.” Sem fazer apologia à dor: a dor é pedagógica. O Bhagavad Gita, um livro do hinduísmo, diz que o dever é algo que emana da própria natureza do ser humano. Na tradição hindu, tem uma história de um guerreiro que está na sua jornada indo em direção ao nirvana, o céu para os orientais, e vai junto com um cachorrinho que sempre está ao seu lado nas dificuldades. E nas portas do nirvana, o cachorrinho é impedido de entrar no nirvana, e o guerreiro então se nega a entrar no nirvana para ficar com o cachorrinho. E o cachorrinho se revela o próprio nirvana, era a última prova do guerreiro. No budismo, o foca é na ação ética de como chegar ao final feliz, no final da jornada, que é a cessação da dor. No sufismo, a doutrina esotérica do islamismo, tem uma história que diz que um sábio ver um homem a beira do abismo, prestes a cair, e tenta salvar ele de todas as maneiras, então aparece o anjo Gabriel e diz para ele entrar no Céu de Alá naquele momento, e o sábio diz: “Não dar para trocar esse seu Céu ai por uma corda para ajuda o meu amigo aqui?” Que dizer, recusa entrar no próprio céu, para ajudar o ser humano. Tem uma frase de Buda que diz o seguinte: “Eu só descansarei quando eu ver as costas do último homem indo em direção ao nirvana.” Confúcio diz que a ética é uma linguagem, e que só vamos ter autoridade para falar dessa linguagem, se aprendermos essa linguagem, com o objetivo de tornar a vida sagrada. Uma visão cerimonial de Confúcio. A filosofia vem para lembrar o ser humano quem realmente somos, e a ética é uma ferramenta da filosofia que vai nos ajudar nessa caminhada

FILMOGRAFIA

Filmes assistidos e recomendados.

Alexandre, o Grande

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  (EUA, 2004) O filme retrata a vida de um grande conquistador que viveu por volta de 490 a.C, o que mais nos choca no filme, sem dúvida, são as cenas que retratam a educação grega pautada na filosofia e fortemente militarizada. O sonho que Alexandre tinha de conquistar o mundo também...

EM NOME DE DEUS

EM NOME DE DEUS
(Inglaterra/Iugoslávia, 1988). Direção: Clive Donner. O filme apresenta a história do amor proibido entre Abelardo, filósofo e professor na catedral de Notre Dame, em Paris, e Heloísa, jovem sobrinha de um rico padre. História verídica de um dos mais famosos casais de filósofos, ambos escreveram e...

O HOMEM QUE NÃO VENDEU SUA ALMA

O HOMEM QUE NÃO VENDEU SUA ALMA
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O NOME DA ROSA

O NOME DA ROSA
(Itália, 1986). Direção: Jean-Jacques Annaud. Baseado no romance homônimo, o filme é uma investigação sobre uma série de assassinatos ocorridos num mosteiro, na Idade Média. Vale a pena conferir a trama religiosa, política, filosófica e lógica que sustenta a história. O romance homônimo é do...

GIORDANO BRUNO

GIORDANO BRUNO
(Itália, 1973). Direção: Giuliano Montaldo. Vida do filósofo, astrônomo e matemático italiano Giordano Bruno, na passagem da Idade Média para a Idade Moderna, em relação aos conflitos científicos, morais, filosóficos  e religiosos da época. 123 min.


COMO FUNCIONA O INTELECTO?

Como funciona o intelecto? Introdução ao Empirismo e Criticismo


 Embora faça parte da apostila do 1º bimestre, vamos abordar este tema agora no 2º bimestre, uma vez que no bimestre anterior dei preferência para compreendermos um pouco sobre o que é filosofia? sua origem na Grécia Antiga; os fatores que contribuiram para seu surgimento e alguns dos principais filósofos do perído pré-socrático, finalizando o bimestre falando sobre Sócrates e seu método para se chegar a verdade (conhecimento). 

O termo intelecto é originado do latim intellectus. Significa inteligência (intellegire), ou seja, compreender. Na concepção clássica grega, a partir do filósofo Anaxágoras, o intelecto (nous) significa o princípio de ordenação do cosmo e, por extensão, a faculdade do pensamento humano, enquanto esta reflete a ordem cósmica. Distingue-se assim das sensações e dos desejos e apetites, sendo assim, pois, "a parte da alma com a qual esta conhece e pensa", conforme Aristóteles.
(JAPIASSÚ, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996).

 1. COMO FUNCIONA O INTELECTO?
A realidade do universo é imensa. O homem é apenas um dos elementos integrantes de um conjunto infinito de seres que compõem esta realidade.
A inteligência humana capta os sinais do mundo, ou melhor, a realidade que nos cerca através dos órgãos dos sentidos: ouvidos, olhos, língua, pele e nariz. Estes órgãos fazem parte de um complexo mecanismo que nos permite ter sensações.
SENSAÇÃO = é o resultado de uma transformação realizada pelo sistema nervoso, que "traduz" a impressão originada pela excitação de nossos sentidos.
Os cheiros, os sons, os sabores, as cores e as temperaturas, tudo é interpretado  pela inteligência. Além disso, podemos partilhar o que captamos com os outros. Assim, a interpretação não se reduz a uma atividade da mente isolada e entra em contato com o mundo real.
Por exemplo: se está calor e minha pele está sentindo o sol, eu posso fazer esse comentário para outra pessoa e ela pode confirmar .
São as experiências interpretadas pelos seres humanos que dizem o que é verdadeiro  ou não. A isso damos o nome de empirismo, porque nossa inteligência, ou nosso intelecto, necessita da experiência para entender o mundo.
A razão tem  a função de perceber os fatos que provocam as sensações e avaliá-los, julgá-os e organizá-los.

 2. RAZÃO E INTELIGÊNCIA
A razão tem  a função de perceber os fatos que provocam as sensações e avaliá-los, julgá-os e organizá-los.
A realidade assume diversas facetas que tornam determinados fatos incompreensíveis pela razão, pois esta possui um conhecimento limitado do universo. Mas a razão, a todo momento, procura romper estes limites e compreender cada vez mais. É nestes momentos que ela se socorre de outra faculdade de nossa mente, a inteligência.
A inteligência é especializada em em resolver problemas e ampliar o poder de entendimento da razão. Entretanto, a inteligência não possui "vontade". Ela é
acionada somente quando houver necessidade.
razão é a faculdade que aciona a nossa inteligência. A inteligência por sua vez, para auxiliar a razão, recorre aos seus próprios mecanismos. No entanto, a nossa mente possui determinadas funções que nos livram do trabalho de utilizarmos, a toda hora, a inteligência.

3.  FATOS QUE A INTELIGÊNCIA NÃO PRECISA  EXPLICAR 

 As ações que praticamos repetidas vezes tornam-se automáticas e dispensam a presença da inteligência, que só é colocada a em atividade quando temos de  enfrentar circunstâncias novas, circunstâncias que nos ofereçam algum problema.
HÁBITO = Chamamos de hábito o costume ou disposição automática que adquirimos através da aprendizagem e implica a constante repetição de uma atividade. Portanto, o hábito  é algo adquirido.
INSTINTOS = Diferente do hábito, por serem inatos, ou seja, por terem nascido com os indivíduos, são comuns a todos os exemplares de uma mesma espécie. Por outro lado, os hábitos, por serem adquiridos, podem variar entre os exemplares de uma mesma  espécie. Os instintos funcionam como  fatores que nos predispõem a garantir a propagação e a preservação de nossa espécie.
Como o hábito, também as atividades que realizamos por instinto dispensam a presença atuante da inteligência.
 Fonte: COTRIM, Gilberto. PARISI, Mário. Trabalho dirigido de filosofia. São Paulo: Saraiva, 1996.
        
4. EMPIRISMO: corrente filosófica que defende a aquisição do conhecimento através dos sentidos (experiência sensorial), temos como representante John Locke.
John Locke (1632 - 1704) -  Filósofo inglês
• Afirmava que as ideias são formadas através da experiência dos sentidos.
Obra: Ensaio acerca do entendimento humano (1690)
Para John Locke a mente é um papel branco sem qualquer ideia, por isso ele questiona de onde apreendemos as matérias da razão e do conhecimento, chega a conclusão que o conhecimento nasce da experiência.
 Experiência: possibilita o conhecimento e fazemos experiência dos objetos sensíveis externos  (captados através dos órgãos dos sentidos) e
também das operações internas da mente (reflexão).

5. CRITICISMO: doutrina Kantiana que estuda as condições de validade e os limites do uso que podemos fazer de nossa razão.
Immanuel Kant (1724 - 1804)  - Filósofo alemão
• Criou o criticismo para investigar as possibilidades do conhecimento (julgar e estabelecer os limites da razão)
Crítica da Razão Pura (1781, 1787  2ªed.)
Neste livro Kant afirma na distinção entre o conhecimento puro e o empírico que o conhecimento nasce da  experiência, mas ele se questiona se existe um
conhecimento independente da experiência.
Kant chega a conclusão de que existe duas formas de conhecimento:
-  Conhecimento a posteriori: é fundado e posterior a experiência.
-  Conhecimento a priori: é independente, anterior e distinto da experiência.

CRIANDO UMA IMAGEM CRÍTICA DA FILOSOFIA



Inventores da palavra “filosofia”, os gregos não se teriam enganado. Se é preciso pensar bem é para viver melhor. Considerando o vício como desconhecimento da virtude, o platonismo fundou no pensamento ocidental a idéia segundo a qual “ninguém age mal voluntariamente” – formulação a que corresponde “ninguém erra por deliberação”. Se a medicina se encarregou de curar o corpo, à filosofia coube ser o consolo da alma aflita: “não é necessário fingir filosofar” dizia Epicuro, “mas efetivamente fazê-lo, pois temos interesse não em aparentar boa saúde, mas (em) de fato tê-la. (...) Nunca é cedo, tampouco tarde demais para cuidar da saúde da alma”. Nietzsche também dizia serem os artistas e os filósofos os médicos da civilização. A filosofia forma almas fortes pelo exercício da análise de si e do pensamento autônomo.
Epicuro considerava a filosofia não como instrução ou aquisição passiva de informações, mas uma atividade que, através de um generoso sentimento, a philia (amizade), ultrapassa a dimensão da sabedoria contemplativa e se expande em amor à humanidade. O logos filosófico traz a verdade iluminadora: é o discurso que se faz pharmakon, remédio que dissolve crenças e superstições – fonte do medo e dos males da alma. Seu objetivo “não é instruir os homens, mas tranquiliza-los”.
O pharmakon filosófico é o discurso terapêutico que busca a autarquia da alma e do corpo, o domínio da dor do corpo e da alma pela filosofia: “nunca se adie o filosofar quando se é jovem, nem (se) canse de fazê-lo quando se é velho, pois que ninguém é jamais pouco maduro nem demasiado maduro para conquistar a saúde da alma. E quem diz que a hora do filosofar ainda não chegou ou já passou assemelha-se ao que diz que ainda não chegou ou já passou a hora de ser feliz”. A noção de felicidade, por mais indeterminada que seja, é objeto da filosofia e da medicina. Para os gregos, a ciência era a busca da justa vida e do bem-viver. 

1. O QUE É FILOSOFIA? ETIMOLOGIA


Muitos filósofos dedicaram boa parte da vida tentando responder essa questão. A filosofia não é apenas um conjunto de conhecimentos, mas vai além disso. Pode ser compreendida como um saber que tem por interesse a formação da inteligência crítica das pessoas. Sob esse aspecto, ela nos leva a uma inquietação, uma atitude ou um posicionamento diante da vida e do mundo. Essa inquietude conduz a uma série de indagações e reflexões e também à não aceitação do óbvio. A tudo isso chamamos de atitude filosófica.
No livro Convite à Filosofia (1995), a historiadora e filósofa brasileira Marilena Chauí afirma que filosofar ou ter uma atitude filosófica poderia ser a "decisão de não aceitar como óbvias e evidentes as coisas, as ideias, os fatos, as situações, os valores, os comportamentos de nossa existência cotidiana; jamais aceitá-los sem antes havê-los investigado e compreendido".
A atitude filosófica leva o indivíduo a negar o senso comum, a questionar e refletir sobre os elementos do cotidiano e da existência humana.
É por isso que a filosofia nem sempre teve boa aceitação no país ou entre algumas pessoas mais conservadoras. Seu compromisso em estimular o pensamento crítico e dar a oportunidade de que cada um tire suas próprias conclusões sobre as situações de sua vida, da política, da sociedade, sobre as outras pessoas, pode incomodar àqueles que ão têm interesse em deixar o pensamento livre e crítico ganhar espaços em nossa sociedade.
Alguns importantes pensadores e escritores, dentre eles Rubem Alves, afirma que devemos ter espírito de criança para que possamos exercer nossa plena capacidade filosófica, isso porque a criança busca saber coisas novas e se espanta diante do novo. O adolescente, público alvo do ensino médio também é curioso e essa curiosidade é elemento fundamental para a filosofia. Na introdução da obra Mundo de Sopia, o escritor Jostein Gaarder, disse: " A capacidade de nos surpreendermos é a única coisa de que precisamos para nos tornarmos bons filósofos (...). E agora tens que te decidir, Sofia: és uma criança que ainda não se habituou ao mundo? Ou és uma filósofa que pode jurar que isso nunca lhe acontecerá? ...Não quero que tu pertenças à categoria dos apáticos e dos indiferentes. Quero que vivas a tua vida de forma consciente."
"Com a filosofia, somos capazes de explorar conceitos como o significado da vida, conhecimento, moralidade, realidade, a existência de deus, consciência, política, religião, economia, arte ou linguistica _ a filosofia não tem Fronteira"  (Paul Kleinman)
 


O "EU" RACIONAL


Somos seres racionais e como tal, somos seres pensantes, capazes  de compreender a nossa existência e mais ainda, agir conforme as nossas escolhas éticas.
Nesse sentido, a filosofia cartesiana do “eu penso” nos ajudará na construção do sujeito ético, pois a compreensão de nossas ações, bem como a construção de relações sociais de acordo com referências democráticas, por exemplo, exigem reflexões que se fundamentam em nossa capacidade de cogitar, isto é, de questionar o que vivemos e o que desejamos viver. Daí a importância do uso do pensamento.
Como pensamos? 
Há várias maneiras de dividir as atividades do intelecto. A tradição filosófica aponta a seguinte: juízo, percepção e razão.
Juízo = Atividade intelectual de escolha, avaliação e decisão. Questões éticas:  Qual o critério ou a regra dos nossos juízos? Porque escolhemos isto ou não aquilo? Porque achamos mais importante isto e não aquilo? Etc...
Percepção = É o exame das sensações. Por meio da percepção, nós não apenas ouvimos o som em uma festa, mas podemos compreender o ritmo, verificar se as pessoas estão felizes e enxergar seus movimentos de dança etc. Assim, as questões de caráter ético que podemos fazer agora são:  como melhorar a percepção do mundo? Como sentir melhor e distinguir o que nos cerca? Por que um entendimento errado ou um mau juízo podem produzir tanto mal?
Razão = Por meio da razão, que é lógica, nós temos a regra para os cálculos em nosso pensamento. O que julgamos, percebemos, lembramos   até imaginamos, em geral, podem obedecer às regras da lógica. Assim, a pergunta ética que podemos propor é: como aprofundar a racionalidade, visando a fazer o bem?



O preconceito em relação a Filosofia

     Mais uma produção de texto de um dos alunos do ensino médio, busca mostrar o desenvolvimento da habilidade em associar textos lidos para relacionar ideias e escrever um pequeno artigo.
     No exemplo abaixo, a aluna Maiara Aparecida de Souza, da terceira série "A" do ensino médio da EE. Oscar Antônio da Costa, em São Francisco-SP, demonstrou que é possível, em poucas linhas, escrever, de modo sucinto, o que entendeu sobre "A natureza política do preconceito e da intolerância com a Filosofia", conforme exercício da situação de aprendizagem do volume um em Filosofia. A reflexão feita sobre o preconceito fez perceber que pode causar prejuízo à moral do indivíduo, como aconteceu com Tales de Mileto e Sócrates, cuja a comédia de Aristófanes, nos tempos da Grécia Antiga, chegou a ser um motim para a morte do mestre grego.
     "No início da Filosofia, filósofos sofreram preconceito por questionarem ou buscarem entender a origem das coisas, sendo julgados como seres que 'viviam nas nuvens'.
     Essa forma de preconceito surgiu porque os filósofos, muito sábios, colocavam em risco todos aqueles que se diziam [sabedores], mas pouco conheciam. Isso desencadeou uma revolta, por parte das outras pessoas, disparando 'adjetivos negativos' aos filósofos.
     Sócrates, um grande exemplo disso, foi levado à morte por sua sabedoria, porque colocava em risco a política da época. Essas atitudes, de certa forma, prejudicavam a filosofia.
     Mas, hoje, a visão em relação à Filosofia mudou. Qualquer pessoa pode filosofar, desde que questione. E isso deve permanecer, uma vez que, se faz necessário que existam pessoas assim para questionar não só a natureza humana, mas, também, [sua prática] a natureza política."

Filosofia e Educação Reflexiva


Prof. Darcísio Natal Muraro!
A pergunta é a alma da filosofia!
As experiências com perguntas na infância são inesquecíveis. Representam tentativas inteligentes de lidar com as dificuldades, conflitos, dúvidas, problemas. As perguntas concretizam o desejo da criança de querer saber os mínimos detalhes da vida. São alimentadas pela curiosidade e a imaginação, as portas e janelas para a descoberta do mundo. Saltando das experiências mais simples, as perguntas impulsionam a criança para a conquista de um conhecimento necessário para compreender sua condição no mundo. As pergutas são para o pensamento o que os passos são para o corpo. Este movimento provoca a transformação da própria criança, de seu jeito de agir, brincar, ver e interagir com a realidade. O resultado é crescimento. Quem não lembra das horas matutandoo com certas perguntas que desafiaram a capacidade decifradora dos mistérios? Quem não lembra também do impacto que muitas perguntas causaram aos pais, amigos, professores?

Investigar a experiência de perguntar é ainda um grande desafio para entender a complexidade da mente humana. Poderíamos trabalhar com a hipótese de que a pergunta é a atividade humana que abarca o mais completo desempenho emocional e racional. Vejamos alguns indícios. Os acontecimentos cheios de novidades, mistérios e surpresas provocam a experiência do espanto na vida da criança. Este estranhamento estimula aventurar uma pergunta. A pergunta gera dois movimentos contraditórios: por uma lado, paralisa a ação; por outro, estimula e redireciona para ações diferenciadas como refletir, conversar com alguém, etc. Entrar na roda do questionamento implica fazer a suspensão de pré-juízos, isto é, um distanciamento da realidade para olhar com os olhos da inteligência o que falta em si mesmo. Permite a tomada de consciência de própria ignorância e coloca o ser humano em busca dos objetos da necessidade, do desejo. Sujeito e objetos tomam posição nesta brincadeira. Entram em cena outros sujeitos, já que a pergunta remete sempre a um contexto socializado. O dinamismo do jogo das perguntas conta agora com a reação destes sujeitos que podem aprovar, estimular e se envolver nesta atividade exploratória ou acabar logo com ela mostrando indiferença, respostas evasivas e até repressivas. "Cala boca Menino!" "Pergunte para seu pai!" "Isso é coisa de perguntar?" Colocações dessa ordem ainda continuam a acontecer a todo o momento por adultos desavisados do bloqueio ao pensar que causam. Por outro lado, as crianças são também interrogadas constantemente. Este é o outro lado da experiência compartilhada dos problemas. Compreender uma pergunta e pensar uma resposta exige reflexão. Nem sempre os adultos se preocupam com as conseqüências das perguntas que fazem às crianças. Há que se ter tato e sensibilidade para não se fazer perguntas infantilizadas ou adultas demais! Assim, chegamos ao outro ponto: o trato com as perguntas é um dos grandes problemas da educação filosófica. A maneira como as experiências sobre perguntas são conduzidas têm papel decisivo na formação ou deformação da atitude indagadora que perdurará pela vida afora.

Insistimos na questão: olhar atentamente as perguntas das crianças revela a riqueza da atividade de uma mente inquieta, curiosa, observadora, criativa e um espírito investigativo querendo desabrochar. Perguntamos: é possível cultivar e desenvolver esse "pensamento interrogante" da infância? Como? E as crianças que não perguntam? Existiriam bloqueios ao perguntar? Como lidar com isso? Seria possível despertar as perguntas adormecidas no universo infantil? Quais seriam as conseqüências disso? Que relação há entre perguntar e aprender, perguntar e pensar? Como o professor pode trabalhar com as perguntas em sala de aula? Existem perguntas certas e erradas? As crianças devem fazer perguntas ou elas devem apenas responder as perguntas dos professores?

Perguntar é uma atividade que só o ser humano é capaz de fazer e, certamente a mais importante de todas para a formação de um pensamento autônomo. As perguntas começam a aparecer muito cedo na vida da criança na medida em que elas adquirem a linguagem. A criança dá vida às palavras, brinca com elas, faz delas um brinquedo. As palavras se transformam no brinquedo dos brinquedos e das brincadeiras e isto possibilita construir um mundo imaginário. É certo que às vezes a brincadeira vai longe demais e o próprio brinquedo é que passa a jogar com a criança. Mas é isso que intriga, ou seja, a descoberta da variedade de relações que o pensamento pode fazer com o uso da linguagem. Neste processo de construção dos significados surgem problemas, porque algumas relações se tornam confusas, incompletas, ou então, quando confrontadas com as crenças, aparecem contradições, dúvidas, diferenças ou se tornam mesmo muito engraçadas provocando, inevitavelmente, muitas perguntas.

As perguntas das crianças expressam o encantamento diante do mundo e a necessidade de compreendê-lo melhor. Poderíamos afirmar que é na pergunta que está o interesse, ou a fome pelo conhecimento necessário para nutrir o pensamento na busca de significados. Esta busca pressupõe o diálogo. A educação não pode acontecer sem este princípio, ou seja, sem um amor efetivo às questões que nos tornam seres humanos reflexivos.

As descobertas e construções da filosofia, da ciência, da religião e da própria arte que constituem o que chamamos de "humanidade" se originaram de perguntas que captaram os problemas centrais da existência. Perguntar é uma das características marcantes de todos os homens e mulheres que deram grande contribuição para a cultura humana. Sensibilizados por problemas eles encontraram as perguntas adequadas para desenvolver novas concepções. Responder às perguntas portadoras de questões relevantes, buscando encontrar as melhores respostas, é a outra parte da prática investigativa. Neste processo de construção das "boas respostas" aparecem muitas outras perguntas e esta rede de perguntas e respostas abre o leque de alternativas na investigação do desconhecido. Uma mente aberta se ocupará com perguntas que interpelem pelas diversas dimensões da investigação: epistemológica, ética, política, econômica, estética ou do rigor da lógica e da linguagem. Ao mesmo tempo, a relação perguntas-respostas tem repercussões na prática na medida em que permite refletir sobre os problemas e prever soluções. Desta forma, temos caminhos para conduzir a ação de maneira inteligente. É por isso que a pergunta desperta e conserva a curiosidade e a crítica e, nesse percurso, acaba melhorando consideravelmente a maneira de pensar, imaginar e criar como resultado do exercício de diferentes habilidades e competências. Outro aspecto importante é o desenvolvimento da auto-estima, ou seja, o senso de que se é capaz de formular boas perguntas e buscar respostas, ou pelo menos compartilhar a pergunta com alguém que ajude a encontrar caminhos. Assim, a pergunta contagia também outras pessoas que se põem na busca de questões antes não percebidas ou sentidas. Desenvolve-se uma "simpatia inteligente" pelos problemas humanos. Não seria esse um bom motivo para uma abertura e acolhimento maior, mais radical à pergunta por parte dos educadores, ao cultivo desta atitude questionadora necessária a qualquer processo de reflexão, crítica e criativa?

Imaginemos agora esse movimento encadeado de perguntas - repostas em torno de problemas concretos dos alunos acontecendo em sala aula. Torna-se uma espécie de jogo no qual o diálogo que se estabelece entre as crianças e o professor é extremamente significativo, atraente e lúdico. Mais do que isso, é uma aprendizagem viva em que os alunos participam de todo processo: formulação e registro das perguntas com as respectivas autorias, organização das perguntas em grupos conforme as questões suscitada de determinado problema, aprofundamento destas questões no diálogo da comunidade, registro dos resultados: conceitos construídos, hipóteses, novas perguntas, ações propostas. Além de aprender um conteúdo de forma reflexiva e contextualizada, aprendem-se também valores: respeito pelas diferenças de opiniões, interesse pela investigação do que é problemático na realidade, envolvimento com os objetivos comuns, respeito às regras combinadas na comunidade de sala de aula, capacidade de esperar a vez e de exigir sua vez para expressar seu ponto de vista, capacidade de se comunicar com clareza com os outros, solidariedade e tolerância às diferenças, responsabilidade com a prática democrática e com a própria educação. O processo comporta também uma aprendizagem emocional na medida em que a criança tem a oportunidade e de questiona-se sobre certos sentimentos e investigar sua procedência, pertinência e relevância para sua vida em grupo. É nesse contexto de comunicação que se desenvolve a reflexão acerca da própria linguagem, condição básica para a reflexão em qualquer área de conhecimento. O inverso desta prática é a educação centrada na repetição das perguntas e respostas já prontas de um conteúdo acabado. A fragmentação do conteúdo em questões dá uma falsa idéia do processo de conhecer, como se este fosse apenas uma pergunta e uma determinada resposta. Destina-se à memorização e pressupõe que o aluno milagrosamente junte as partes para formar uma compreensão ampla de certa matéria. Esta prática colabora indiretamente para inibir o potencial indagador dos alunos. Contribui para desenvolver atitudes de acomodação ou adaptação passiva do aluno ao mundo dos conhecimentos. Uma coisa é ensinar palavras, conceitos, frases, concordâncias, equações, informações para se guardar na memória, outra, bem diferente, é ensinar a perguntar e pôr o pensamento a procurar resposta ou respostas que podem se transformar em conceitos, frases, equações, etc. A dificuldade está em perceber que a pergunta da criança é sempre sobre algo da cultura, daquilo que é humano e, por isso, de extremo interesse para ela. E não é sobre isso que trata o "conteúdo curricular"? Ensinar a perguntar é reensinar o encantamento, o assombro, o distanciamento inteligente desta realidade para captá-la de forma problemática. Responsabilidade, interesse e esforço nascem naturalmente de em uma criança intrigada por um problema vital a ser investigado. O ser pensante aprende também a correr riscos e lidar com a novidade. Há que se reinventar o caminho!

O processo de aprendizagem mediado por perguntas que permitem investigar um problema é o que chamamos de "pedagogia da pergunta". Esta prática visa o desenvolvimento do pensamento inquiridor, crítico, criativo e ao mesmo tempo ético. Aprender a trabalhar com a pedagogia da pergunta exige rever a formação dos professores. Vivemos numa cultura de perguntas e respostas "dadas" e que viciou também o modo de perguntar e responder. Perguntas fora deste quadro atrapalham a aula e são um incômodo para a memorização do conteúdo, ou pior ainda, para se vencer um conteúdo pré-determinado. Afirmamos que as próprias crianças têm que refletir sobre as perguntas que fazem, mas isso não acontece se a classe for submetida a uma prática autoritária que poda inclusive a possibilidade de errar a pergunta e auto-corrigir o curso da investigação. Portanto, o desafio é aprender a lidar com o medo das novas perguntas e desenvolver uma cultura que estimule um perguntar de forma diferente: genuíno, radical, aberto e constante, buscando explorar os extremos do saber. Uma cultura de perguntas que interrogue de forma substantiva para conhecer, questionando os processos / procedimentos e produtos da reflexão. Questionar para não se aceitar algo como natural, para não se aceitar passivamente os significados sem o processo de entendimento das razões, pressupostos e conseqüências. O que está em jogo é a formação da capacidade de julgamento dos alunos. Ensinar a perguntar é ensinar a pensar por si mesmo. E aprender o processo de pensar as perguntas e as respostas é aprender a aprender. E como este aprender a aprender necessita de uma prática de compartilhar idéias, deliberação conjunta e a busca de consensos e respeito ao dissenso, ele reforça nossas atitudes de vida democrática de exercício de cidadania.

Afirmar que a criança tem o direito de pensar é reconhecer o dever das escolas e educadores de ensinar a pensar. A cultura do pensar por perguntas na escola não se faz sem um espaço para a filosofia, área de conhecimento que tem se especializado sobre o pensar. Estamos falando da atividade de questionamento filosófico: uma prática que deve ter uma dimensão específica chamada de "disciplina" de filosofia e uma outra dimensão interdisciplinar e multidisciplinar. Educar para o pensar nesta perspectiva exige rever muitas de nossas concepções e processos pedagógicos. Talvez essa seja a questão central diante da realidade globalizada onde a técnica nos dá acesso a todas as informações, a todos os pensamentos, mas não nos dá a atitude reflexiva, questionadora, investigativa.