segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Artigo sobre o Capitão Hipólito Antônio Pinheiro
Wanderlei Donizete Pereira
            Dentre as inúmeras personalidades que participaram da formação histórica e política do município de Franca, uma figura ainda desperta grande interesse entre os pesquisadores da região na busca por novos fatos que ampliem sua biografia. Trata-se de Hipólito Antônio Pinheiro, nome atribuído ao grande capitão tido como fundador do município de Franca.
             Nascido por volta de 1746 na “Freguesia do Rio das Mortes”, região onde hoje se localiza as cidades de Congonhas, Tiradentes, Mariana e São João Del Rei, casou-se com Rita Angélica do Sacramento, com quem teve onze filhos. Não se sabe ao certo quando se deu a transferência de Hipólito e sua família para a região de Franca. O registro mais recente divulgado pelos pesquisadores dos Sertões do Jacuhy, sendo uma transcrição feita por Walter Antônio Marques Lelis e Sônia Regina Belato de Freitas Lelis, a partir de microfilmes da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (Mórmons), traz um registro de óbito de um filho recém nascido de Hipólito e Rita Angélica, datado de 1803, situando os mesmos como moradores da Paróquia da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Jacuhy, o que já corresponde a uma proximidade de Franca.
            Ao migrar para a região de Franca, Hipólito adquiriu terras às quais denominou como “Fazenda Chapadão”, local hoje incorporado ao município de Pedregulho, onde fixou sua família e seus escravos. A vinda de Hipólito e sua família para essa região pode ser associada ao esgotamento do ouro das Gerais, bem como pela descoberta de diamantes na região de Franca, aliado ainda à existência de boa quantidade de terras devolutas e propensas à criação de gado e plantação nessa região.
            De acordo com relatos documentais, mesmo antes de se tornar Capitão de Ordenanças, Hipólito já era designado para realizar algumas missões para a administração provincial. Uma delas publicada recentemente se refere à incumbência de Hipólito de expulsar os indígenas dessa região. O fato dos mesmos impedirem a entrada de migrantes não agradava a Coroa, cujo interesse era o povoamento que, consequentemente, possibilitaria novas fontes de lucro à mesma, já debilitada pela queda na arrecadação do ouro.
            Estando vago o posto de “Capitão de Ordenanças” dessa região, através de uma indicação da Câmara Municipal de Mogi Mirim, em 31 de agosto de 1804, o governador da província de São Paulo nomeou Hipólito como titular desse posto, recebendo a patente que a partir de então, lhe designou o pronome de “Capitão”.
            O Corpo de Ordenanças correspondia à terceira força militar do Exército da Coroa Portuguesa, sendo a primeira formada pelos militares pagos pela mesma, e a segunda formada pelas milícias. Conhecidos também por “paisanos armados” seus integrantes possuíam um forte caráter local e procuravam efetuar um arrolamento de toda a população para as situações de necessidade militar.
Os componentes das Ordenanças eram indicados ao posto pela Câmara Municipal a qual estavam submetidos, não recebiam soldo, permaneciam em seus serviços particulares e, somente em caso de grave perturbação da ordem pública, abandonavam suas atividades. O termo “paisanos armados” demonstrava se tratar de um grupo de homens que não possuía instrução militar específica, devendo ser íntegros e de extrema confiança de seus superiores, sendo utilizados em missões de caráter militar e em atividades de controle interno, subdividindo-se em companhias.
Assumindo o posto de “Capitão de Ordenanças do Sertão da Estrada de Goiás, Distrito do Rio Pardo, até o Rio Grande”, Hipólito se destacou como grande defensor da causa de Franca, por ocasião da questão dos limites entre Mogi Mirim e Jacuí.
Em agosto de 1805, os moradores dessa região, se encontravam totalmente dependentes de Mogi Mirim, a qual estavam submetidos, uma vez que, para a obtenção de serviços públicos ou religiosos como batismos ou documentos em geral se fazia necessário o deslocamento até aquela Freguesia, o que girava em torno de 250 quilômetros, além de todos os perigos com relação à presença indígena ao longo do percurso.
Perante as dificuldades enfrentadas pelos moradores, percebendo também o risco iminente da tentativa de anexação da região por parte de Minas Gerais, em carta datada de 06 de agosto de 1805, endereçada ao Governador da província de São Paulo, Antônio José da Franca e Horta, tendo em anexo um mapa da região, o Capitão Hipólito reivindica a criação de uma Freguesia, além da construção de dois quartéis, sendo um na região atual de Ibiraci e outro nas proximidades de Patrocínio Paulista, como forma de melhorar a vida dos moradores, além de proteger as divisas que compunham essa região.

                     
Primeiro mapa de Franca elaborado pelo Capitão Hipólito Antônio                            Gravura atribuída a Hipólito 
Pinheiro datado de 1805, anexado ao pedido de criação da Freguesia.                         Antônio Pinheiro publicada em 28 
                                                                                                                                               de novembro de 1999 pelo jornal
                                                                                                                                               Comércio da Franca.

 Tendo seus pedidos aceitos, a autorização para a criação da Freguesia foi dada em 29 de agosto de 1805, cuja cerimônia de criação da mesma se deu em 03 de dezembro, com a doação do patrimônio religioso – parte das terras da fazenda Santa Bárbara – à Nossa Senhora da Conceição, feita pelos irmãos Antunes.
Abrangendo a área de aproximadamente 38 quilômetros, correspondente aos municípios de Batatais, Ibiraci, Restinga, Cristais Paulista, São José da Bela Vista entre outros, com a presença de um vigário, seus moradores passaram a obter seus sacramentos, adquirir condições cíveis, bem como os demais serviços prestados pela Igreja, evitando os transtornos até então sofridos por essa população.
Através do esforço do Capitão Hipólito, a região passa a ter um nome oficial: a Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Franca e Rio Pardo, iniciando um processo de reconhecimento e influência política regional.
Com o constante crescimento populacional da freguesia, e o conseqüente aumento das necessidades do povoado, em 1809 o Capitão Hipólito inicia a luta pela elevação da freguesia à condição de Vila, status que garantiria a implantação de diversos órgãos administrativos, bem como o rompimento dos laços de dependência com relação a Mogi Mirim, além de se extinguir o risco de uma possível intenção de dominação da região por parte do lado mineiro.
Em carta anexada de abaixo-assinado enviada ao governador da província, Antônio José da Franca e Horta, o Capitão Hipólito expõe a importância da elevação da freguesia à condição de Vila, uma vez que o crescimento da população já exigia a implantação de um governo “autônomo”, como forma de coordenar esse crescimento, evitando a anexação do território à Vila mineira de Jacuí que, segundo ele, já tinha planos seguros para essa ação. No mesmo documento Hipólito propõe a construção da Câmara e da cadeia através de seus próprios recursos, não sendo necessário nenhum gasto por parte da Coroa.
Mesmo com o esforço empreendido pelo Capitão Hipólito, somente 15 anos depois, em 1824, a Freguesia de Franca é elevada oficialmente ao status de Vila, recebendo a denominação de Vila Franca do Imperador, fato que se oficializou em 28 de novembro, data em que se comemora o aniversário de Franca. Através daí, Franca passou a ter sua Câmara de Vereadores, Cadeia e demais órgãos componentes do sistema administrativo da época. A construção desses órgãos se deu de acordo com a proposta de Hipólito, com seus próprios recursos, tendo sido construída no mesmo local onde hoje se localiza a agência de correios no centro da cidade.
Dentro da estrutura administrativa da época, o Capitão Hipólito Antônio Pinheiro assumiu o posto de Juiz Ordinário, primeiro posto na hierarquia, demonstrando sua importância nessa conquista, bem como sua influência política perante o comando da coroa portuguesa estabelecida no Brasil.
Em 1818, o militar, engenheiro e historiador Luis Dalincourt, em seu livro “Memórias sobre a Viagem do Porto de Santos a Cuiabá” descreve o arraial de Franca e em especial, o Capitão Hipólito da seguinte forma:
                                         O arraial foi  fundado ha 13 para 14 annos por Hyppolito                                         
                                                                Antonio pinheiro, Capitão do Districto
                                                                [...] é ele o mais opulento do logar, e sete legoas arredado
                                                                possue uma  grande fazenda.

Hipólito permaneceu ativo na vida política até o final dos anos 20 do século XIX, participando da mediação entre mineiros e paulistas no tocante às divisas, principalmente na região do Aterrado. A partir de então, se retirou da vida pública, fixando-se em sua fazenda dedicando-se a criação de gado e cultivo de lavouras, vindo a falecer em 16 de agosto de 1840, com 94 anos, segundo cópia do registro de óbitos da Matriz, que se encontra no Arquivo Histórico de Franca, que por sinal, o tem como Patrono desde sua fundação1989.
Dizer que Hipólito foi o “fundador” de Franca seria desprezar a história oculta dos primeiros habitantes que viveram nessa região nas primeiras décadas do século XVIII. Retratá-lo como herói também não seria correto, pois Hipólito era um homem do seu tempo, Senhor de escravos, sendo encarregado de tratar do povoamento da região, participou da luta contra os indígenas, mas não se pode negar sua importância na ordenação territorial e, principalmente na sua existência política. Poucos homens na história tiveram papel tão decisivo na formação de um município como o caso de Hipólito. Tendo seu nome como o primeiro recenseado nos livros paroquiais, sua descendência perdura ainda hoje na continuidade da história de Franca. Não é rara a presença de seus descendentes nas instalações do Arquivo Histórico, comprovando sua importância na formação do município de Franca, e merecendo a atenção e os estudos que vêm sendo desdobrados no objetivo de tornar ainda mais lúcida sua participação na constituição da sociedade francana.











O Papel do Arquivo Como Agente de Transformação Social e Desenvolvimento

Graziela Alves Corrêa*
Ligia Souza Guido**
Wanderlei Donizete Pereira***

Se procurarmos em um dicionário ou em livros especializados no assunto, um significado para a palavra “arquivo”, encontraremos as seguintes definições, escritas nestas ou em outras palavras:
Arquivo é o conjunto de documentos que, independentemente da natureza ou do suporte, são reunidos por acumulação ao longo das atividades de pessoas físicas ou jurídicas, públicas ou privadas[1].
Ou ainda, sendo a entidade ou órgão administrativo responsável pela custódia, pelo tratamento documental e pela utilização dos arquivos sob sua jurisdição[2].
            A frieza transmitida pelo termo técnico ofusca a real função que deve ser exercida por esse órgão no que se refere ao serviço prestado à comunidade em geral.
             Seja no âmbito federal, estadual ou municipal, a função do arquivo público deve ir muito além de um mero depósito de papéis que, conforme as leis vigentes, não pode ser destruído. Daí, a necessidade de se organizar uma equipe voltada para a formação histórico-cultural, como responsável gestão e desenvolvimento de educação patrimonial dentro deste setor de essencial importância na administração pública.
            É necessário que se tenha uma visão arquivística dinâmica, enxergando muito além de um volume material inativo que já cumpriu sua função documental, mas sim, um rico acervo, capaz de construir e reconstruir a história, além de preencher lacunas existentes suprindo às necessidades de um número infinito de pesquisadores do meio acadêmico, ou ainda atendendo aos anseios da comunidade em geral na forma de prestação de serviços que proporcionem os direitos de cidadania garantidos aos mesmos na forma da lei.
O Arquivo Público é a expressão maior da memória histórico-cultural de um povo e, por isso mesmo, fonte imprescindível da recomposição de sua identidade através de seu acervo e, sobretudo, de sua função de pesquisa.
Seguindo essa linha de procedimento metodológico, o Arquivo Municipal de Franca “Capitão Hipólito Antônio Pinheiro”, a partir do acervo documental mantido sob sua custódia, tem disponibilizado um amplo volume bibliográfico para pesquisa, englobando processos diversos, sejam de natureza civil, criminal ou trabalhista com origem no final do século XVIII ao final da década de 80 do século XX, além de jornais, livros e revistas voltados principalmente para o cotidiano local, possibilitando um rico material de pesquisa para que a história de Franca continue a ser escrita de forma autêntica e baseada na veracidade das fontes documentais.
Figura 01 – Parte do acervo do Arquivo Histórico Municipal
 “Capitão Hipólito Antônio Pinheiro”


A preservação do patrimônio histórico é fundamental para que um povo adquira identidade. É através de sua história que a comunidade conhece suas origens e entende o porquê dos acontecimentos e ações que culminaram na sua atual realidade. O Arquivo Público tem como objetivo, resgatar a memória histórica e transmiti-la ao seu povo.
A melhor forma de preservar a história de um povo é fazer com que essa história chegue até o mesmo, seja de forma escrita, falada ou visualizada. Além disso, é necessário que se divulgue a existência desse acervo histórico constantemente, a fim de que o desejo de entrar em contato com esse material sirva como motivação às pessoas de diferentes faixas etárias, no sentido de absorção do conhecimento da história local.
O trabalho de educação patrimonial deve ser inseparável à atividade de institutos, centros culturais ou espaços dedicados ao estudo e pesquisa histórica. Especialmente, os órgãos pertencentes ao poder público, independente da esfera que pertençam - federal, estadual ou municipal. Ana Carmen Amorin Jara Casco, no artigo Sociedade e educação patrimonial[3], elenca as diretrizes de atuação do IPHAN e dentre estas, consta “Valorizar os acervos documentais como fonte de conhecimento para o desenvolvimento das ações de preservação”.
Nesse sentido, o Arquivo Histórico Municipal de Franca, desenvolve atividades para divulgar seu acervo e envolver a comunidade com a história da cidade. Inúmeros são os autores que reafirmam a necessidade e a importância de se trabalhar história, memória e identidade em educação patrimonial.
Essa prática propicia não apenas uma experiência de conhecimento do espaço e suas transformações, mas também consegue envolver o indivíduo, pois:

O conhecimento crítico e a apropriação consciente pelas comunidades do seu patrimônio são fatores indispensáveis no processo de preservação sustentável desses bens, assim como no fortalecimento dos sentimentos de identidade e cidadania[4].


            É com esse intuito que a equipe do Arquivo Histórico “Capitão Hipólito Antônio Pinheiro”, sendo um órgão pertencente e ligado diretamente à Secretaria Municipal de Educação, bem como à Divisão de Cultura do município, tem buscado continuamente estabelecer parcerias com diferentes entidades educacionais, tais como escolas estaduais e municipais, além de universidades públicas e privadas, no sentido de organizar visitas monitoradas de alunos dessas entidades, abrangendo desde crianças do ensino básico, até estudantes universitários, ou ainda, promovendo cursos complementares voltados para a área de História.
            No que se refere à promoção de visitas, os alunos da rede de ensino pública ou privada recebem informações detalhadas sobre a importância do acervo documental, a origem da cidade de Franca, além da necessidade de se preservar o patrimônio cultural do município.
 É importante se destacar que a metodologia empregada nas oficinas é adaptada conforme a faixa etária dos estudantes, objetivando sempre expor com clareza e fácil compreensão, o conteúdo ministrado dentro das visitas, possibilitando a máxima absorção de informações de forma simples e motivadora.


Figura 02 – crianças da rede municipal de ensino em oficinas
Ministradas no Arquivo Histórico Municipal “Capitão Hipólito
Antônio Pinheiro”

            Os recursos empregados variam desde a mostra de documentos, como jornais, revistas, processos, fotos, até a apresentação de slides exibidos em “Datashow”, ou exposições periódicas abordando determinado tema em evidência. As visitas duram entre uma hora e meia e duas horas.

Figura 03 – Estagiários do CIEE analisando documento
do século XVIII




No ano de 2007, temos a seguinte relação de visitantes:

Meses Ano de 2007

Número de visitantes

Janeiro
281
Fevereiro
338
Março
532
Abril
528
Maio
620
Junho
642
Julho
582
Agosto
735
Setembro
487
Outubro
512
Novembro
418
Dezembro
351

Há de se destacar que durante o mesmo ano, cerca de 2010 alunos na faixa etária de 06 a 18 anos, participaram das oficinas e visitas agendadas no Arquivo Histórico.
Com relação à promoção de cursos, desde 2006 vem sendo ministrado o curso de extensão universitária em Capacitação em Projetos e Gestão de Patrimônio Cultural e Arqueologia, voltado principalmente para estudantes de História, realizado através de parceria entre a Secretaria Municipal de Educação, Divisão de Cultura e o MAE/USP – Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo.
                                                                                                                                                               Figura 04 – Aula de Arqueologia ministrada pelo professor                                                                                                                Marcelo Pini Prestes no Arquivo Histórico Municipal
            Atuando ainda como órgão voltado para o atendimento das necessidades da comunidade em geral, o Arquivo Histórico Municipal mantém edições diárias dos principais jornais do município que, após serem arquivados, constantemente voltam a ser consultados pelos munícipes, como forma de documento comprovante de ações na justiça, ou qualquer outro fato que requer a publicação em periódicos locais.
            Outro serviço de extrema relevância prestado pelo Arquivo Histórico Municipal “Capitão Hipólito Antônio Pinheiro”, se refere à emissão de certidões de sepultamento no Cemitério da Saudade, graças à guarda e informatização dos livros de sepultamento desse cemitério. Esse serviço tem ajudado constantemente diversas famílias a comprovarem a posse de sepulturas que até então se encontravam fora dos padrões de regulamentação exigidos pelo município.
            No decorrer desse artigo procuramos expor várias situações demonstrando a importância do Arquivo Histórico em assumir seu papel de instrumento de preservação histórico-cultural, atuando não apenas como um local de guarda de documentos, mas sim, como um pólo local e regional de pesquisa, educação patrimonial e, acima de tudo, um órgão prestador de serviços à comunidade em geral.
            Através dos exemplos citados, enfocamos a função social do Arquivo Histórico como um órgão que, ao mesmo tempo em que acompanha as transformações da sociedade moderna, promove o respeito ao que foi construído no passado, contribuindo para a formação de uma sociedade mais sensível e preparada a construir um futuro baseado em um desenvolvimento sustentável e mais consciente.



           


                       



*Graduada em História e Direito pela UNESP-Franca, Diretora do Arquivo Histórico Municipal “Capitão Hipólito Antonio Pinheiro” e Presidente do CONDEPHAT - Franca.
**Graduanda em História pela UNESP-Franca, Estagiária do CONDEPHAT - Franca.
***Graduado em História pela UNESP – Franca, Funcionário do Arquivo Histórico Municipal “Capitão Hipólito Antonio Pinheiro”.
[1] MARTINS, N. R. Noções Básicas para Organização de Arquivos Ativos e Semi-Ativos. Campinas: UNICAMP, 1998. p. 4.  Apostila disponível em http://www.unicamp.br/siarq/arq_setoriais/nocoes_basicas_para_organizacao_de_arquivos.pdf 
Acessado em 10/04/2008.
[2] Idem
[3] Artigo extraído do site do IPHAN, www.iphan.gov.br em 31/03/2008.
[4] HORTA, M.L.P., GRUNBERG, E., MONTEIRO, A.Q. Guia Básico de Educação Patrimonial. Brasília: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Museu Imperial, 2006. p. 6.

A TELEVISÃO EM FRANCA

A TELEVISÃO EM FRANCA

Wanderlei Donizete Pereira*

A ideia de se registrar fatos ou ações através de imagens acompanha o ser humano desde o início da civilização. A começar dos tempos mais remotos o homem já inscrevia nas rochas, desenhos representando seus feitos, como grandes caçadas ou outros acontecimentos que explicitassem suas emoções, ou conquistas, gravando as mesmas para a posteridade. Foi e ainda é através dessas imagens, uma das formas que se tem conseguido reconstruir o modo de vida das civilizações que nos antecederam a milhares de anos.
A invenção da máquina fotográfica no século XIX foi capaz de tornar impressa de maneira nítida e verossímil um determinado momento digno de ser registrado por quem o presenciava ou ainda o presencia, pois ao longo do tempo a fotografia continua sendo uma das formas mais práticas do registro dos acontecimentos.
A criação do cinema encantou o mundo ao dar movimento às imagens capturadas por quadros parados, aproximando as pessoas da idéia de imagem em tempo real. Porém, foi através da televisão a invenção capaz de trazer para dentro dos lares um verdadeiro “mundo de sonhos, realidade e diversão”.
Sua praticidade e rapidez na transmissão das informações foi capaz de, ao longo do tempo, atingir a todas as classes sociais formando opiniões, ditando moda e comportamento em diferentes sociedades.
A invenção da televisão se deve às pesquisas de grandes matemáticos e físicos, que, desde o início do século XIX, já se dedicavam aos estudos que possibilitassem a transmissão de imagens à distância, entre eles, Alexander Bain, que em 1842, obteve a transmissão telegráfica de uma imagem (fac-símile), também conhecido como fax.
Em 1817, o químico sueco Jacob Berzelius descobriu o selênio, mas foi em 1873, que o inglês Willoughby Smith comprovou que o mesmo possuía a propriedade de transformar energia luminosa em energia elétrica. Através desta descoberta pode-se formular a transmissão de imagens por meio da corrente elétrica. Em 1923 Vladimir Zworykin registrou a patente do tubo iconoscópico para câmaras de televisão, o que tornou possível a televisão eletrônica. Em 1925 o inglês John Logie Baird conseguiu transmitir contornos de objetos e pessoas à distância, apresentando-o no ano seguinte, a toda a comunidade científica.
Com base nesses experimentos e suas conseqüentes evoluções, a partir de 1935 a Alemanha, França e Inglaterra iniciam suas primeiras transmissões, sendo que esta última inaugura em 1936 sua principal estação até aos dias atuais: a BBC.

A TELEVISÃO NO BRASIL

A inserção da televisão no Brasil teve como pioneiro o jornalista Assis Chateaubriand. Em 1948 ele viaja aos Estados Unidos para a realização de um estágio nas estações NBC e RCA objetivando conhecer suas técnicas de funcionamento, como também tornar-se o pioneiro na importação dos equipamentos e aparelhos que chegariam ao país em 1950, além de fundar a primeira emissora de televisão do Brasil: a TV Tupi.
Entrando no ar oficialmente em 18 de setembro de 1950, a TV Tupi inaugurava uma nova era nas comunicações brasileiras.
Em sua primeira década de implantação a televisão se restringia às famílias de maior poder aquisitivo, tendo em vista que todo o aparato como também os aparelhos eram importados principalmente dos Estados Unidos, o que onerava consideravelmente o produto.
Além disso, construir a programação que iria ao ar também se constituía um verdadeiro desafio, pois além de não se possuir um número de profissionais suficientemente preparados, tudo o que se produzia era apresentado ao vivo, pois ainda não existia o vídeo tape, fato que dificultava ainda mais esse processo.
Ainda no início da década de 1950 o governo federal inicia a abertura de concessões permitindo que novas emissoras fossem fundadas, como a Rede Record em 1953. Porém é na década de 1960 que, com o surgimento do vídeo tape, foi possível instalar as primeiras retransmissoras pelo Brasil, possibilitando um novo processo inovador que daí por diante, se intensificou por todo o país.

A TV EM CORES
A TV em cores no Brasil começa em 1962, quando a TV Excelsior de São Paulo transmite alguns programas no Sistema NTSC. Em 1963  a TV Tupi de São Paulo também experimenta a transmissão em cores  em NTSC. Mas o sistema não vingou, pois todas os receptores em cores eram importados e custavam muito caro. As transmissões de TV em cores, no Brasil, só começariam efetivamente na década de 1970, com a copa do mundo do México.
A TV POR ASSINATURA NO BRASIL
            Com início das operações da TVA, em 1991, surgiram as primeiras emissoras de TV por assinatura no Brasil dominado pelos grupos brasileiros Abril e Globo. Porém esse sistema de televisão obteve um crescimento lento nos primeiros 15 anos de implantação. Esse fato vem mudando radicalmente nos últimos quatro anos graças à venda associada, por parte das operadoras de serviços de banda larga de Internet.
A CHEGADA DA ERA DIGITAL NO PAÍS.

Lançado no Brasil a partir de 2007, o sistema de TV digital se mostra como o mais revolucionário desde a criação da televisão. Além da alta qualidade de som e imagem, tornou-se possível a interatividade do telespectador com a programação, tornando a mesma num veículo de comunicação ainda mais eficiente e dinâmico.
Porém a implantação desse sistema que ocorre de forma gradativa e lenta, aliado ao alto custo dos novos aparelhos tende a retardar seu processo de popularização, o que possivelmente ainda levará alguns anos para englobar todas as classes sociais do país.

A TELEVISÃO EM FRANCA

As primeiras imagens produzidas em Franca que se tem notícia referem-se a um vídeo institucional produzido no ano de 1922, retratando a cidade naquele período, sendo exibido nos cinemas da cidade e outras grandes cidades do país.
Quanto à chegada da televisão em nossa cidade, o primeiro registro que se tem documentado é através de uma matéria publicada pelo jornal “O Francano”, datada do dia 13 de outubro de 1957, convidando a população para uma demonstração inédita na cidade, marcada para o dia 15 de outubro daquele mesmo ano. O evento seria aberto inicialmente por uma palestra proferida por Alexandre Von Baungarten, seguida por um show com artistas da TV Tupi com transmissão aberta à população, que se realizaria na Praça Barão, onde seriam colocados aparelhos de televisão para apreciação da população francana:

O “Show” será transmitido para a Praça Barão, por meio de aparelhos televisores, a fim de que o nosso povo tenha oportunidade de presenciar um espetáculo inédito em nossa cidade por meio da maior invenção do século.
A Radio Difusora São Paulo S/a e Emissoras Associadas Rádio Tupi, convidam por nosso intermédio o povo de Franca para assistir ao auspicioso acontecimento.
(Jornal O Francano, 13 de outubro de 1957)

            A nota do jornal noticiava também a concessão do sinal da TV Tupi para a região de Ribeirão Preto, contemplando também a cidade de Franca:

É bom salientar que o Sr. Presidente da Republica concedeu canal para a zona de Ribeirão Preto e Franca, concessão essa dada à Radio Difusora São Paulo Tupi canal 3.
Por meio de torres ou “LINKS” será trazida a imagem de S. Paulo até Franca e mais 140 cidades e distritos de toda essa vasta região serão beneficiados.
(Jornal O Francano, 13 de outubro de 1957).

            O Jornal “Comércio da Franca do dia 16 de outubro destacava o sucesso do evento presenciado por um grande número de expectadores, cuja abertura foi realizada pelo então prefeito Onofre Gosuen:
Com os salões inteiramente lotados, realizou-se ontem ás 20:30 horas na Sociedade Síria, a esperada demonstração de televisão, abrilhantada por artistas da Televisão Tupy – Canal 3, de São Paulo. O espetáculo que teve patrocínio da Sociedade Síria Beneficente, Associação do Comércio e Indústria e Radio Difusora de S. Paulo, foi televisionado por três aparelhos, nos salões e dois outros, colocados na Praça Barão da Franca, onde numeroso público teve a oportunidade de presenciar o inédito acontecimento, através do vídeo.
Precedendo ao “Show” houve explanações por técnicos da TV referentes ao melhoramento com que será datada esta região e sua grande utilidade no campo artístico e cultural.
Usaram da palavra o Sr. Onofre Gosuen em nome da cidade, Abílio de Andrade Nogueira, vice-prefeito, em nome da A.C.I.F. e um publicista da TV. A seguir foi dado início ao “show” com a participação de dois artistas francanos (Abgail de Carvalho e Branca de Neve), conjunto regional da Tupy, três cantoras e um sambista das Associadas. (Jornal Comércio da Franca, 16 de outubro de 1957).

Muito embora tenham sido autorizadas as concessões para o interior do país, esses serviços só são implantados a partir da década de 1960, mesmo assim, de forma muito lenta e precária, pois além do alto custo em investimentos, o aparelho de TV também era considerado um aparelho de luxo, sendo que poucas famílias dispunham de poder aquisitivo para adquiri-los.
            Prova disso é que em Franca no ano de 1963, conforme matéria do jornal Comércio da Franca publicada no dia 22 de fevereiro daquele ano, Franca possuía 190 televisores instalados. Segundo o jornal, os números foram fornecidos pelas empresas revendedoras da cidade atendendo à solicitação de uma equipe empenhada em trazer o canal 7 (Record) para a cidade. Fato interessante é que, conforme os números apresentados pelo jornal, o Magazine Luiza, atualmente um dos maiores revendedores desse produto no país, aparecia apenas em sexto lugar entre as lojas desse setor, tendo vendido apenas 12 aparelhos, 40 a menos que a Cred-Borges, principal revendedora, com 52 aparelhos vendidos.
            Durante os anos 60 tanto os setores público quanto privado encamparam diversos projetos que visavam oferecer condições para o sucesso da retransmissão televisiva na cidade. Órgãos como o Clube de Televisão, entidade formada por membros associados cujo pagamento das mensalidades se destinava a adquirir equipamentos e melhorar a retransmissão dos sinais de TV para Franca, mais tarde absorvida pela municipalidade, bem como o Departamento Municipal de Televisão, substituído pelo Serviço Municipal de Televisão são alguns exemplos de como esse sistema de comunicação e entretenimento tornava-se importante para a comunidade francana.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      
                          
Anúncios de venda de aparelhos em
Franca no ano de 1967
            É interessante observar que chegou mesmo a ser promulgada uma lei municipal que instituía a cobrança pelos serviços de retransmissão do sinal aos proprietários de aparelhos de televisão, como forma de arrecadar recursos para a melhoria desse serviço.
        A LEI Nº 1.597, DE 11 DE MARÇO DE 1968 estabelecia a cobrança de 1/10 do valor do maior salário mínimo vigente no país, divididas nos 12 meses do ano, exclusivamente aos proprietários de aparelhos de televisão. A cobrança desse serviço, aplicado juntamente com o serviço de água vigorou até julho de 1971 quando acabou sendo revogada.
Pra que se tenha uma idéia do valor dessa taxa, o preço médio de uma televisão em julho de 1971 era de CR$ 890,00. Levando-se em conta o último valor da taxa cobrada pelo serviço sendo, segundo um jornal da época, de CR$ 1,30, esse valor equivalia a pouco mais do que o preço de uma cerveja das marcas principais que estão no mercado ainda hoje, que naquele período custava CR$ 1,15 ou um pacote de farinha de trigo, de igual valor.
Nas décadas de 70 e 80 Franca recebe autorização para instalar a torre de transmissão da TV Cultura, Empresa Paulista de Televisão, retransmissora do canal 9, Bandeirantes e SBT, porém foi em 1975 que um fato histórico marcou a cidade e região: através do DECRETO Nº 76.584, DE 10 DE NOVEMBRO DE 1975, Franca recebeu autorização para instalação de sua primeira emissora de televisão com imagens geradas aqui.
A concessão foi conquistada por Agostinho Galgani Silva, também proprietário da Radio Imperador, porém pouco tempo depois o Grupo Imperador acabou transferindo essa concessão ao Grupo Silvio Santos e Paulo Machado de Carvalho, proprietários da Rede Record. A implantação e exploração de suas atividades ficaram a cargo desse Grupo. Por razões burocráticas até a legalização da transferência por parte do antigo DENTEL (Departamento Nacional de Telecomunicações) a Razão Social da Emissora permanecerá sob denominação do Grupo Imperador. A inauguração vai ocorrer quatro anos depois, no dia 09 de julho de 1979, quando a TV Imperador entra oficialmente no ar para Franca e região.
Quando eram 17 horas de ontem, um acontecimento marcou as comunicações brasileiras. A partir daquele momento, passou a funcionar o mais novo canal de televisão do país, que é justamente a TV Imperador, canal 4, de Franca. O fato não teve nenhuma solenidade especial, pois a única coisa diferente para os técnicos que já trabalham lá há semanas nos estúdios da nossa TV foi a visita dos diretores do Grupo Silvio Santos/Record, que vieram para assistir ao início das transmissões. (jornal Comércio da Franca, 10 de julho de 1979, pg. 06).
   
Equipamentos da TV Imperador

A programação era retransmitida em vídeo tape. Os primeiros, programas feitos em Franca, foram transmissões esportivas e sertanejas. Mesmo com as dificuldades, a prioridade era focar a identidade regional da emissora, com a cobertura de eventos locais e regionais.
 Em funcionamento há 31 anos, o canal 4 hoje denominado Rede Record – Franca se modernizou, abrangendo toda região administrativa de Franca, Ribeirão Preto e algumas cidades de sul de Minas, mantendo diariamente parte de sua programação voltada para jornalismo e programas locais.
            Em 1999 e 2000 Franca recebeu os sinais das emissoras MTV e Gazeta, respectivamente, passando a possuir os principais canais de TV abertos do país. Nesse ano de 2010, Franca passou a receber o sinal digital através da EPTV Ribeirão, sendo inserida nesse sistema que se apresenta como o mais moderno em funcionamento no país.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Sem dúvida, a televisão revolucionou o mundo, influenciou comportamentos, marcou décadas e hoje é o meio de comunicação com maior penetração e importância no mundo, mesmo depois da popularização da Internet. No Brasil, a televisão tornou-se um aparelho tido como o “sonho de consumo” de todas as classes sociais. Em muitos lugares, mesmo em moradias sem o mínimo de infra-estrutura como saneamento básico ou água potável, a televisão está presente, tal sua influência em nossa sociedade.
No ano de 2009, de acordo com a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), 95,7% das residências do país possuía aparelho de televisão, já o número de casas com geladeiras chegava apenas a 93,4%. Em se tratando de computador com Internet esse número não passava de 27% da população.
Do artigo de luxo e imagem que se resumia a alguns chuviscos difíceis de decifrar, a televisão se popularizou, a tecnologia se modernizou, o preço diminuiu e ela  conquistou a preferência de todas as classes sociais. Nesse ano de 2010 chegando aos 60 anos de Brasil e 53 anos de sua primeira demonstração em Franca, mesmo com todas as tecnologias que vêm surgindo de forma constante e instantânea, a televisão deve permanecer ainda por muitas décadas como o veículo de comunicação mais popular do Brasil.

Referências Bibliográficas:
Jornal O Francano – décadas de 1950 e 60.
Jornal Comércio da Franca – 1964 a 2000.
http://www.tudosobretv.com.br
comercial@radioimperador.com.br



* Formado em História pela UNESP Franca e Funcionário do Arquivo Histórico Municipal “Capitão Hipólito Antônio Pinheiro”.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

UMA VERDADE INCONVENIENTE

UMA VERDADE INCONVENIENTE
(O RACISMO DENTRO DA ESCOLA)
PROFESSOR JOSÉ MARIA DE OLIVEIRA JUNIOR
O presente artigo tem como objetivo um estudo sobre o racismo, preconceito e discriminação em duas escolas estadual de Franca da zona norte - SP. Tem como questão de pesquisa elucidar: é esse preconceito ou discriminação percebido em nível consciente pelos elementos da escola? Parte de um referencial teórico que contextualiza o racismo como fenômeno universal, que acontece ora de forma explícita, ora menos ou mais veladamente em diversas situações sociais e educacionais. Numa abordagem qualitativa, usa de procedimentos vários para coletas de dados cujas análises propiciarão algumas condições que poderão melhorar a inclusão étnica, e a não extensão de postura eurocêntrica que permeiam relações humanas escolares, currículos, livros didáticos e o próprio ensino de Historia. Este artigo tem por objetivo demonstrar que os educadores do nossa cidade precisam buscar meios de contribuir com o extermínio do preconceito sofrido pelos alunos negros na escola, contribuindo para a melhoria inter-étnicas e erradicação de uma cultura escolar eurocêntrica. Tem por objetivo alertar que esta questão é uma luta cujo engajamento contribuirá para uma verdadeira cidadania.
Tem como princípio verificar o preconceito sofrido pelos negros em duas Escolas Estadual de Franca no Ensino Fundamental e Médio. Atualmente em sala de aula o aluno negro é tratado com diferença em relação ao aluno branco?
Partimos da suposição que atualmente o aluno negro é tratado com diferença na sala de aula, observações feitas entre os anos de 2013 e 2014 nos autorizam a ter o preconceito como um fato.
Interessamos por esse tema para que possamos contribuir com a conscientização dos profissionais sobre o preconceito sofrido pelos alunos negros nas escolas.
Há necessidade de explicarmos termos que durante o trabalho não serão usados como sinônimos. Referimo-nos à: Racismo, Discriminação e Preconceito.
Trazemos aqui as significações dadas a esses termos pelo novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, com algumas considerações elaboradas por Kabengele Munanga.
Antes de mais nada é necessário a explicação do termo negro. Negro é um conceito político que englobam todos aqueles (negros, mestiços, morenos, mulatos) de antecedência parcial ou totalmente africana.
O conhecimento dos conceitos envolvidos no sistema de relações raciais no Brasil é fundamentalmente para combater o racismo.
Preconceito (do latim praeconceptu) substantivo masculino. 1. Conceito ou opinião formado antecipadamente, sem maior ponderação ou conhecimento dos fatos, idéias preconcebidas. 2. Julgamento ou opinião formada sem levar em conta o fato que o conteste, prejuízo.
Por extensão suspeita, intolerância, ódio irracional ou aversão a outras raças, credos, religiões etc.
O racismo é um problema mundial; no Brasil não é diferente, em especial em Franca é tratado como se não existisse sendo inúmeras as pessoas que negam a existência de racismo na cidade
Existe o racismo no Brasil, mas de uma maneira ora explicita, ora velada e sutil, sendo o negro uma das suas vítimas prediletas. Às vezes assume práticas mais ostensivas que se constituem em discriminação.
O racismo no Brasil é passado de geração para geração, ou seja, de pai para filho, criando-se desta forma um círculo vicioso. Nunca foi fácil ser negro no Brasil, inclusive nos dias de hoje. “Quando escravo, o negro foi tratado como ‘coisa’. Depois passou a ser discriminado como se fosse cidadão de segunda categoria”. (Valente, 1994, p.12).
Foi elaborado um documento por um grupo de trabalho ordenado pela pró-reitoria de cultura e extensão universitária da Universidade de São Paulo em 1995 tratando da exclusão social que afeta os cidadãos de origem africana do nosso país. Essa exclusão ocorre em inúmeras áreas entre elas estão:
• educação
• questões econômicas
• questões da mulher negra
• imagem do negro com relação à mídia
• saúde
• representatividade do negro na política
• racismo e violência
É trágica a situação das crianças e dos jovens brasileiros que vem abandonando a escola antes mesmo de concluir o 1º grau. Uma parte sai da escola para ajudar a família financeiramente, a outra desanima devido aos repetidos insucessos. Com os descendentes africanos a situação é bem mais séria, pois esses ingressam mais tarde na escola e estão sujeitos ao maior índice de evasão. Os descendentes de africanos quando chegam a escola enfrentam atitudes e ações racistas por parte dos conteúdos, dos professores e dos colegas.
“O negro no Brasil é educado para entender desde muito cedo que para ser homem ele deve ser branco”. (Lopes, 1987, p.39).
O trabalho é a principal atividade econômica, os negros sofrem muitas atitudes preconceituosas no mercado de trabalho. O Anuário Estatístico-92 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE mostra que os trabalhadores negros recebem apenas 41% do rendimento dos brancos, a renda percapta dos brancos é pelo menos três vezes maior que a do negro e a população negra tem acesso praticamente bloqueado as ocupações nobres.
As mulheres negras sofrem dois tipos de discriminação: de ser negra e ser mulher. Essas mulheres lutam a cada dia mais buscando igualdade e participam de conferências mundiais da mulher.
No Brasil, as TVs comerciais e públicas não possuem respeito pela população afro-brasileira, pois não possuem programações voltadas para o atendimento específico dos seus valores, necessidades e história.
Quando os negros aparecem na história da TV e do cinema brasileiro são sempre representados por estereótipos e clichês negativos. Os microfones, câmeras e papel jornal acostumam-se a apresentar sempre a imagem do negro em três: lúgubre, lúdico e luxurioso. O negro lúgubre está no noticiário frequente das crônicas policiais, ou como o cabisbaixo serviçal ou melancólico bêbado, o lúdico aparece em ocasiões eventuais, em datas comemorativas, como no carnaval, o negro luxurioso é aquele estereotipado que aparece em filmes trazendo uma imagem barroca e lasciva a ausência ou esterotipia do negro nos meios de comunicação são expressivas formas de violência que se praticam contra os afros descendentes no Brasil.
Kabengele Munanga destaca dois pontos que ele acredita ser fundamentais para contribuir com o combate à discriminação:
•estabelecer sedes internacionais de intercâmbio tendo como compreensão que a construção e o fortalecimento de uma identidade étnica em um mundo globalizado passam pela expansão de informação sobre os distintos processos nacional e mundial de criação e produção simbólica dos negros. E que essa identidade é continuamente alimentada por influências culturais e musicais como o rap, o reggae, o cinema, de artistas das Américas e da África e pelos valores humanos de líderes negros mundiais como Martin King e Nelson Mandela.
• dar prioridade a realização de um grande desejo: a construção de uma TV afro-brasileira. E tê-lo não como uma meta possível ainda neste final de século.
A rede de saúde privada em nosso país é muito custosa; como os negros são em sua grande maioria pobres, tem acesso apenas à rede pública. A rede pública não é eficiente é muito mal estruturada. Infelizmente no Brasil algumas doenças têm se registrado com maior freqüência entre os descendentes de africanos: hipertensão arterial, anemia, fala forme, diabete, melito, deficiência de lactase e alguns tipos de má formação congênita oriundas não de inferioridade biológica, mas de descaso político quanto às condições de saúde dessa população.
O número de negros nas câmeras municipais, Assembléias Legislativas e no Congresso Nacional é muito pequeno se for comparado com a quantidade de negros existentes em nosso país. Isso ocorre até mesmo na Bahia, que é uma região onde os negros são a maioria.
Nos casos de violência massiva, ocorridas no Brasil, existe a presença majoritária de negros e pardos entre os mortos. O professor e pesquisador Sérgio Adorno, docente da Universidade de São Paulo, constatou em seus estudos que os negros não recebem o mesmo tratamento dos brancos nos tribunais. Ele verificou que 27% dos brancos respondem processo em liberdade e apenas 15% dos negros conseguem esse benefício.
O racismo se originou no escravismo que perdurou até nos dias de hoje, adquirindo novas formas. Mesmo com todas as mudanças econômicas, sociais e políticas o negro continuou sendo visto como inferior.
“Nem tudo é igual ao que era durante a escravatura, mas as formas de opressão que atuavam sobre os negros perduram com novas roupagens ou poderíamos dizer o papel da opressão foi refuncionalizado” (Valente, 1994, p.12).
Para acabar com o problema racial que existe no Brasil, a mentalidade da sociedade também precisa mudar, essa não mudará de um dia para o outro, é necessário a existência de um processo educativo para que aos poucos as pessoas tenham em mente que o respeito é fundamental, independente de cor ou de raça.
Essas formas de expressão correspondem a uma gradação no conteúdo de violência do racismo.
O Preconceito é a forma mais comum, a mais freqüente de expressão do racismo. É a forma mais comum e mais freqüente porque se trata de um sentimento, ou de uma idéia apenas. Ele consiste na visão estereotipada de características individuais ou grupais como correspondentes a valores negativos. As idéias preconceituosas integram o sistema de valores culturais e podem ser transmitidas pelos sistemas de comunicação. Um indivíduo pode ser preconceituoso e não agir de modo discriminativo ou racista, embora isto seja muito raro.
Discriminação: (do latim discriminatore) substantivo feminino. 1. Ato ou efeito de discriminar. 2. Faculdade de distinguir ou discernir, discernimento. 3. Separação, apartação e segregação.
Discriminar pode não significar marginalizar. Do ponto de vista científico, discriminar requer o uso da faculdade de discernir. Não se pode discernir uma coisa da outra de modo preconceituoso. Para discernir é preciso conhecer, analisar.
No mercado de trabalho, os processos de seleção, em regra discriminam negros e mestiços de forma preconceituosa por não levar em conta o discernimento feito através de provas e testes de qualidades e habilidades profissionais.
Racismo: (do inglês racim - francês racirme) substantivo masculino. 1. Doutrina que sustenta a superioridade de certas raças. 2. Qualidade, sentimento ou ato de indivíduo racista.
O Racismo é um sistema de opressão da diferença marginalizada no qual cada etapa se apoia, nutre-se e sustenta-se na outra.
A partir do momento em que grupos raciais, grupos étnicos, grupos culturais, tipos físicos são objeto da prática racista, tanto a sociedade quanto o Estado ficam ameaçados com suas práticas.
BIBLIOGRAFIA
Metodologia cientifica / Eva Maria Lakatos, Marina de Andrade Marconi. - 6. ed. São Paulo: Atlas 2011
O Negro no mundo dos brancos / Florestan Fernandes. 2. ed revista - São Paulo: Global, 2007.
Racismo: A verdade dói: encare / texto Conceição Lourenço; coordenação de texto Jorge J. Okubaro - São Paulo; Editora Terceiro Nome; Mostarda Editora 2006.