segunda-feira, 23 de novembro de 2015

A TELEVISÃO EM FRANCA

A TELEVISÃO EM FRANCA

Wanderlei Donizete Pereira*

A ideia de se registrar fatos ou ações através de imagens acompanha o ser humano desde o início da civilização. A começar dos tempos mais remotos o homem já inscrevia nas rochas, desenhos representando seus feitos, como grandes caçadas ou outros acontecimentos que explicitassem suas emoções, ou conquistas, gravando as mesmas para a posteridade. Foi e ainda é através dessas imagens, uma das formas que se tem conseguido reconstruir o modo de vida das civilizações que nos antecederam a milhares de anos.
A invenção da máquina fotográfica no século XIX foi capaz de tornar impressa de maneira nítida e verossímil um determinado momento digno de ser registrado por quem o presenciava ou ainda o presencia, pois ao longo do tempo a fotografia continua sendo uma das formas mais práticas do registro dos acontecimentos.
A criação do cinema encantou o mundo ao dar movimento às imagens capturadas por quadros parados, aproximando as pessoas da idéia de imagem em tempo real. Porém, foi através da televisão a invenção capaz de trazer para dentro dos lares um verdadeiro “mundo de sonhos, realidade e diversão”.
Sua praticidade e rapidez na transmissão das informações foi capaz de, ao longo do tempo, atingir a todas as classes sociais formando opiniões, ditando moda e comportamento em diferentes sociedades.
A invenção da televisão se deve às pesquisas de grandes matemáticos e físicos, que, desde o início do século XIX, já se dedicavam aos estudos que possibilitassem a transmissão de imagens à distância, entre eles, Alexander Bain, que em 1842, obteve a transmissão telegráfica de uma imagem (fac-símile), também conhecido como fax.
Em 1817, o químico sueco Jacob Berzelius descobriu o selênio, mas foi em 1873, que o inglês Willoughby Smith comprovou que o mesmo possuía a propriedade de transformar energia luminosa em energia elétrica. Através desta descoberta pode-se formular a transmissão de imagens por meio da corrente elétrica. Em 1923 Vladimir Zworykin registrou a patente do tubo iconoscópico para câmaras de televisão, o que tornou possível a televisão eletrônica. Em 1925 o inglês John Logie Baird conseguiu transmitir contornos de objetos e pessoas à distância, apresentando-o no ano seguinte, a toda a comunidade científica.
Com base nesses experimentos e suas conseqüentes evoluções, a partir de 1935 a Alemanha, França e Inglaterra iniciam suas primeiras transmissões, sendo que esta última inaugura em 1936 sua principal estação até aos dias atuais: a BBC.

A TELEVISÃO NO BRASIL

A inserção da televisão no Brasil teve como pioneiro o jornalista Assis Chateaubriand. Em 1948 ele viaja aos Estados Unidos para a realização de um estágio nas estações NBC e RCA objetivando conhecer suas técnicas de funcionamento, como também tornar-se o pioneiro na importação dos equipamentos e aparelhos que chegariam ao país em 1950, além de fundar a primeira emissora de televisão do Brasil: a TV Tupi.
Entrando no ar oficialmente em 18 de setembro de 1950, a TV Tupi inaugurava uma nova era nas comunicações brasileiras.
Em sua primeira década de implantação a televisão se restringia às famílias de maior poder aquisitivo, tendo em vista que todo o aparato como também os aparelhos eram importados principalmente dos Estados Unidos, o que onerava consideravelmente o produto.
Além disso, construir a programação que iria ao ar também se constituía um verdadeiro desafio, pois além de não se possuir um número de profissionais suficientemente preparados, tudo o que se produzia era apresentado ao vivo, pois ainda não existia o vídeo tape, fato que dificultava ainda mais esse processo.
Ainda no início da década de 1950 o governo federal inicia a abertura de concessões permitindo que novas emissoras fossem fundadas, como a Rede Record em 1953. Porém é na década de 1960 que, com o surgimento do vídeo tape, foi possível instalar as primeiras retransmissoras pelo Brasil, possibilitando um novo processo inovador que daí por diante, se intensificou por todo o país.

A TV EM CORES
A TV em cores no Brasil começa em 1962, quando a TV Excelsior de São Paulo transmite alguns programas no Sistema NTSC. Em 1963  a TV Tupi de São Paulo também experimenta a transmissão em cores  em NTSC. Mas o sistema não vingou, pois todas os receptores em cores eram importados e custavam muito caro. As transmissões de TV em cores, no Brasil, só começariam efetivamente na década de 1970, com a copa do mundo do México.
A TV POR ASSINATURA NO BRASIL
            Com início das operações da TVA, em 1991, surgiram as primeiras emissoras de TV por assinatura no Brasil dominado pelos grupos brasileiros Abril e Globo. Porém esse sistema de televisão obteve um crescimento lento nos primeiros 15 anos de implantação. Esse fato vem mudando radicalmente nos últimos quatro anos graças à venda associada, por parte das operadoras de serviços de banda larga de Internet.
A CHEGADA DA ERA DIGITAL NO PAÍS.

Lançado no Brasil a partir de 2007, o sistema de TV digital se mostra como o mais revolucionário desde a criação da televisão. Além da alta qualidade de som e imagem, tornou-se possível a interatividade do telespectador com a programação, tornando a mesma num veículo de comunicação ainda mais eficiente e dinâmico.
Porém a implantação desse sistema que ocorre de forma gradativa e lenta, aliado ao alto custo dos novos aparelhos tende a retardar seu processo de popularização, o que possivelmente ainda levará alguns anos para englobar todas as classes sociais do país.

A TELEVISÃO EM FRANCA

As primeiras imagens produzidas em Franca que se tem notícia referem-se a um vídeo institucional produzido no ano de 1922, retratando a cidade naquele período, sendo exibido nos cinemas da cidade e outras grandes cidades do país.
Quanto à chegada da televisão em nossa cidade, o primeiro registro que se tem documentado é através de uma matéria publicada pelo jornal “O Francano”, datada do dia 13 de outubro de 1957, convidando a população para uma demonstração inédita na cidade, marcada para o dia 15 de outubro daquele mesmo ano. O evento seria aberto inicialmente por uma palestra proferida por Alexandre Von Baungarten, seguida por um show com artistas da TV Tupi com transmissão aberta à população, que se realizaria na Praça Barão, onde seriam colocados aparelhos de televisão para apreciação da população francana:

O “Show” será transmitido para a Praça Barão, por meio de aparelhos televisores, a fim de que o nosso povo tenha oportunidade de presenciar um espetáculo inédito em nossa cidade por meio da maior invenção do século.
A Radio Difusora São Paulo S/a e Emissoras Associadas Rádio Tupi, convidam por nosso intermédio o povo de Franca para assistir ao auspicioso acontecimento.
(Jornal O Francano, 13 de outubro de 1957)

            A nota do jornal noticiava também a concessão do sinal da TV Tupi para a região de Ribeirão Preto, contemplando também a cidade de Franca:

É bom salientar que o Sr. Presidente da Republica concedeu canal para a zona de Ribeirão Preto e Franca, concessão essa dada à Radio Difusora São Paulo Tupi canal 3.
Por meio de torres ou “LINKS” será trazida a imagem de S. Paulo até Franca e mais 140 cidades e distritos de toda essa vasta região serão beneficiados.
(Jornal O Francano, 13 de outubro de 1957).

            O Jornal “Comércio da Franca do dia 16 de outubro destacava o sucesso do evento presenciado por um grande número de expectadores, cuja abertura foi realizada pelo então prefeito Onofre Gosuen:
Com os salões inteiramente lotados, realizou-se ontem ás 20:30 horas na Sociedade Síria, a esperada demonstração de televisão, abrilhantada por artistas da Televisão Tupy – Canal 3, de São Paulo. O espetáculo que teve patrocínio da Sociedade Síria Beneficente, Associação do Comércio e Indústria e Radio Difusora de S. Paulo, foi televisionado por três aparelhos, nos salões e dois outros, colocados na Praça Barão da Franca, onde numeroso público teve a oportunidade de presenciar o inédito acontecimento, através do vídeo.
Precedendo ao “Show” houve explanações por técnicos da TV referentes ao melhoramento com que será datada esta região e sua grande utilidade no campo artístico e cultural.
Usaram da palavra o Sr. Onofre Gosuen em nome da cidade, Abílio de Andrade Nogueira, vice-prefeito, em nome da A.C.I.F. e um publicista da TV. A seguir foi dado início ao “show” com a participação de dois artistas francanos (Abgail de Carvalho e Branca de Neve), conjunto regional da Tupy, três cantoras e um sambista das Associadas. (Jornal Comércio da Franca, 16 de outubro de 1957).

Muito embora tenham sido autorizadas as concessões para o interior do país, esses serviços só são implantados a partir da década de 1960, mesmo assim, de forma muito lenta e precária, pois além do alto custo em investimentos, o aparelho de TV também era considerado um aparelho de luxo, sendo que poucas famílias dispunham de poder aquisitivo para adquiri-los.
            Prova disso é que em Franca no ano de 1963, conforme matéria do jornal Comércio da Franca publicada no dia 22 de fevereiro daquele ano, Franca possuía 190 televisores instalados. Segundo o jornal, os números foram fornecidos pelas empresas revendedoras da cidade atendendo à solicitação de uma equipe empenhada em trazer o canal 7 (Record) para a cidade. Fato interessante é que, conforme os números apresentados pelo jornal, o Magazine Luiza, atualmente um dos maiores revendedores desse produto no país, aparecia apenas em sexto lugar entre as lojas desse setor, tendo vendido apenas 12 aparelhos, 40 a menos que a Cred-Borges, principal revendedora, com 52 aparelhos vendidos.
            Durante os anos 60 tanto os setores público quanto privado encamparam diversos projetos que visavam oferecer condições para o sucesso da retransmissão televisiva na cidade. Órgãos como o Clube de Televisão, entidade formada por membros associados cujo pagamento das mensalidades se destinava a adquirir equipamentos e melhorar a retransmissão dos sinais de TV para Franca, mais tarde absorvida pela municipalidade, bem como o Departamento Municipal de Televisão, substituído pelo Serviço Municipal de Televisão são alguns exemplos de como esse sistema de comunicação e entretenimento tornava-se importante para a comunidade francana.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      
                          
Anúncios de venda de aparelhos em
Franca no ano de 1967
            É interessante observar que chegou mesmo a ser promulgada uma lei municipal que instituía a cobrança pelos serviços de retransmissão do sinal aos proprietários de aparelhos de televisão, como forma de arrecadar recursos para a melhoria desse serviço.
        A LEI Nº 1.597, DE 11 DE MARÇO DE 1968 estabelecia a cobrança de 1/10 do valor do maior salário mínimo vigente no país, divididas nos 12 meses do ano, exclusivamente aos proprietários de aparelhos de televisão. A cobrança desse serviço, aplicado juntamente com o serviço de água vigorou até julho de 1971 quando acabou sendo revogada.
Pra que se tenha uma idéia do valor dessa taxa, o preço médio de uma televisão em julho de 1971 era de CR$ 890,00. Levando-se em conta o último valor da taxa cobrada pelo serviço sendo, segundo um jornal da época, de CR$ 1,30, esse valor equivalia a pouco mais do que o preço de uma cerveja das marcas principais que estão no mercado ainda hoje, que naquele período custava CR$ 1,15 ou um pacote de farinha de trigo, de igual valor.
Nas décadas de 70 e 80 Franca recebe autorização para instalar a torre de transmissão da TV Cultura, Empresa Paulista de Televisão, retransmissora do canal 9, Bandeirantes e SBT, porém foi em 1975 que um fato histórico marcou a cidade e região: através do DECRETO Nº 76.584, DE 10 DE NOVEMBRO DE 1975, Franca recebeu autorização para instalação de sua primeira emissora de televisão com imagens geradas aqui.
A concessão foi conquistada por Agostinho Galgani Silva, também proprietário da Radio Imperador, porém pouco tempo depois o Grupo Imperador acabou transferindo essa concessão ao Grupo Silvio Santos e Paulo Machado de Carvalho, proprietários da Rede Record. A implantação e exploração de suas atividades ficaram a cargo desse Grupo. Por razões burocráticas até a legalização da transferência por parte do antigo DENTEL (Departamento Nacional de Telecomunicações) a Razão Social da Emissora permanecerá sob denominação do Grupo Imperador. A inauguração vai ocorrer quatro anos depois, no dia 09 de julho de 1979, quando a TV Imperador entra oficialmente no ar para Franca e região.
Quando eram 17 horas de ontem, um acontecimento marcou as comunicações brasileiras. A partir daquele momento, passou a funcionar o mais novo canal de televisão do país, que é justamente a TV Imperador, canal 4, de Franca. O fato não teve nenhuma solenidade especial, pois a única coisa diferente para os técnicos que já trabalham lá há semanas nos estúdios da nossa TV foi a visita dos diretores do Grupo Silvio Santos/Record, que vieram para assistir ao início das transmissões. (jornal Comércio da Franca, 10 de julho de 1979, pg. 06).
   
Equipamentos da TV Imperador

A programação era retransmitida em vídeo tape. Os primeiros, programas feitos em Franca, foram transmissões esportivas e sertanejas. Mesmo com as dificuldades, a prioridade era focar a identidade regional da emissora, com a cobertura de eventos locais e regionais.
 Em funcionamento há 31 anos, o canal 4 hoje denominado Rede Record – Franca se modernizou, abrangendo toda região administrativa de Franca, Ribeirão Preto e algumas cidades de sul de Minas, mantendo diariamente parte de sua programação voltada para jornalismo e programas locais.
            Em 1999 e 2000 Franca recebeu os sinais das emissoras MTV e Gazeta, respectivamente, passando a possuir os principais canais de TV abertos do país. Nesse ano de 2010, Franca passou a receber o sinal digital através da EPTV Ribeirão, sendo inserida nesse sistema que se apresenta como o mais moderno em funcionamento no país.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Sem dúvida, a televisão revolucionou o mundo, influenciou comportamentos, marcou décadas e hoje é o meio de comunicação com maior penetração e importância no mundo, mesmo depois da popularização da Internet. No Brasil, a televisão tornou-se um aparelho tido como o “sonho de consumo” de todas as classes sociais. Em muitos lugares, mesmo em moradias sem o mínimo de infra-estrutura como saneamento básico ou água potável, a televisão está presente, tal sua influência em nossa sociedade.
No ano de 2009, de acordo com a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), 95,7% das residências do país possuía aparelho de televisão, já o número de casas com geladeiras chegava apenas a 93,4%. Em se tratando de computador com Internet esse número não passava de 27% da população.
Do artigo de luxo e imagem que se resumia a alguns chuviscos difíceis de decifrar, a televisão se popularizou, a tecnologia se modernizou, o preço diminuiu e ela  conquistou a preferência de todas as classes sociais. Nesse ano de 2010 chegando aos 60 anos de Brasil e 53 anos de sua primeira demonstração em Franca, mesmo com todas as tecnologias que vêm surgindo de forma constante e instantânea, a televisão deve permanecer ainda por muitas décadas como o veículo de comunicação mais popular do Brasil.

Referências Bibliográficas:
Jornal O Francano – décadas de 1950 e 60.
Jornal Comércio da Franca – 1964 a 2000.
http://www.tudosobretv.com.br
comercial@radioimperador.com.br



* Formado em História pela UNESP Franca e Funcionário do Arquivo Histórico Municipal “Capitão Hipólito Antônio Pinheiro”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário