O Papel do Arquivo Como Agente de Transformação Social
e Desenvolvimento
Graziela Alves Corrêa*
Ligia Souza Guido**
Wanderlei Donizete Pereira***
Se procurarmos em um dicionário ou em livros especializados no assunto,
um significado para a palavra “arquivo”, encontraremos as seguintes definições,
escritas nestas ou em outras palavras:
Arquivo é o conjunto de documentos que,
independentemente da natureza ou do suporte, são reunidos por acumulação ao
longo das atividades de pessoas físicas ou jurídicas, públicas ou privadas[1].
Ou ainda, sendo a
entidade ou órgão administrativo responsável pela custódia, pelo tratamento
documental e pela utilização dos arquivos sob sua jurisdição[2].
A
frieza transmitida pelo termo técnico ofusca a real função que deve ser exercida
por esse órgão no que se refere ao serviço prestado à comunidade em geral.
Seja no âmbito federal, estadual ou municipal,
a função do arquivo público deve ir muito além de um mero depósito de papéis
que, conforme as leis vigentes, não pode ser destruído. Daí, a necessidade de
se organizar uma equipe voltada para a formação histórico-cultural, como
responsável gestão e desenvolvimento de educação patrimonial dentro deste setor
de essencial importância na administração pública.
É
necessário que se tenha uma visão arquivística dinâmica, enxergando muito além
de um volume material inativo que já cumpriu sua função documental, mas sim, um
rico acervo, capaz de construir e reconstruir a história, além de preencher
lacunas existentes suprindo às necessidades de um número infinito de
pesquisadores do meio acadêmico, ou ainda atendendo aos anseios da comunidade
em geral na forma de prestação de serviços que proporcionem os direitos de
cidadania garantidos aos mesmos na forma da lei.
O Arquivo Público é a expressão
maior da memória histórico-cultural de um povo e, por isso mesmo, fonte
imprescindível da recomposição de sua identidade através de seu acervo e,
sobretudo, de sua função de pesquisa.
Seguindo essa linha de
procedimento metodológico, o Arquivo Municipal de Franca “Capitão Hipólito
Antônio Pinheiro”, a partir do acervo documental mantido sob sua custódia, tem
disponibilizado um amplo volume bibliográfico para pesquisa, englobando
processos diversos, sejam de natureza civil, criminal ou trabalhista com origem
no final do século XVIII ao final da década de 80 do século XX, além de
jornais, livros e revistas voltados principalmente para o cotidiano local,
possibilitando um rico material de pesquisa para que a história de Franca
continue a ser escrita de forma autêntica e baseada na veracidade das fontes
documentais.

Figura 01 – Parte do acervo
do Arquivo Histórico Municipal
“Capitão Hipólito Antônio Pinheiro”
A preservação
do patrimônio histórico é fundamental para que um povo adquira identidade. É através
de sua história que a comunidade conhece suas origens e entende o porquê dos
acontecimentos e ações que culminaram na sua atual realidade. O Arquivo Público
tem como objetivo, resgatar a memória histórica e transmiti-la
ao seu povo.
A melhor
forma de preservar a história de um povo é fazer com que essa história chegue
até o mesmo, seja de forma escrita, falada ou visualizada. Além disso, é
necessário que se divulgue a existência desse acervo histórico constantemente, a
fim de que o desejo de entrar em contato com esse material sirva como motivação
às pessoas de diferentes faixas etárias, no sentido de absorção do conhecimento
da história local.
O trabalho de educação patrimonial deve ser inseparável à atividade de
institutos, centros culturais ou espaços dedicados ao estudo e pesquisa
histórica. Especialmente, os órgãos pertencentes ao poder público, independente
da esfera que pertençam - federal, estadual ou municipal. Ana Carmen Amorin
Jara Casco, no artigo Sociedade e educação patrimonial[3],
elenca as diretrizes de atuação do IPHAN e dentre estas, consta “Valorizar os
acervos documentais como fonte de conhecimento para o desenvolvimento das ações
de preservação”.
Nesse sentido, o Arquivo Histórico Municipal de Franca, desenvolve
atividades para divulgar seu acervo e envolver a comunidade com a história da
cidade. Inúmeros são os autores que reafirmam a necessidade e a importância de
se trabalhar história, memória e identidade em educação patrimonial.
Essa prática propicia não apenas uma experiência de conhecimento do
espaço e suas transformações, mas também consegue envolver o indivíduo, pois:
O conhecimento crítico e a
apropriação consciente pelas comunidades do seu patrimônio são fatores
indispensáveis no processo de preservação
sustentável desses bens, assim como no fortalecimento dos sentimentos de identidade e cidadania[4].
É com esse intuito que a equipe do Arquivo Histórico
“Capitão Hipólito Antônio Pinheiro”, sendo um órgão pertencente e ligado
diretamente à Secretaria Municipal de Educação, bem como à Divisão de Cultura
do município, tem buscado continuamente estabelecer parcerias com diferentes
entidades educacionais, tais como escolas estaduais e municipais, além de
universidades públicas e privadas, no sentido de organizar visitas monitoradas
de alunos dessas entidades, abrangendo desde crianças do ensino básico, até
estudantes universitários, ou ainda, promovendo cursos complementares voltados
para a área de História.
No que se refere à promoção de visitas, os alunos da rede
de ensino pública ou privada recebem informações detalhadas sobre a importância
do acervo documental, a origem da cidade de Franca, além da necessidade de se
preservar o patrimônio cultural do município.
É importante se destacar que a metodologia
empregada nas oficinas é adaptada conforme a faixa etária dos estudantes,
objetivando sempre expor com clareza e fácil compreensão, o conteúdo ministrado
dentro das visitas, possibilitando a máxima absorção de informações de forma
simples e motivadora.

Figura 02 – crianças da rede
municipal de ensino em oficinas
Ministradas no Arquivo Histórico
Municipal “Capitão Hipólito
Antônio Pinheiro”
Os
recursos empregados variam desde a mostra de documentos, como jornais,
revistas, processos, fotos, até a apresentação de slides exibidos em
“Datashow”, ou exposições periódicas abordando determinado tema em evidência. As
visitas duram entre uma hora e meia e duas horas.

Figura 03 – Estagiários do CIEE
analisando documento
do século XVIII
No ano de 2007,
temos a seguinte relação de visitantes:
Meses Ano de 2007
|
Número de visitantes
|
|
Janeiro
|
281
|
|
Fevereiro
|
338
|
|
Março
|
532
|
|
Abril
|
528
|
|
Maio
|
620
|
|
Junho
|
642
|
|
Julho
|
582
|
|
Agosto
|
735
|
|
Setembro
|
487
|
|
Outubro
|
512
|
|
Novembro
|
418
|
|
Dezembro
|
351
|
Há de se
destacar que durante o mesmo ano, cerca de 2010 alunos na faixa etária de 06 a 18 anos, participaram das
oficinas e visitas agendadas no Arquivo Histórico.
Com
relação à promoção de cursos, desde 2006 vem sendo ministrado o curso de
extensão universitária em Capacitação em Projetos e Gestão de
Patrimônio Cultural e Arqueologia, voltado principalmente para estudantes de História, realizado através
de parceria entre a Secretaria Municipal de Educação, Divisão de Cultura e o MAE/USP
– Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo.
Figura
04 – Aula de Arqueologia ministrada pelo professor Marcelo
Pini Prestes no Arquivo Histórico Municipal
Atuando ainda como órgão voltado
para o atendimento das necessidades da comunidade em geral, o Arquivo Histórico
Municipal mantém edições diárias dos principais jornais do município que, após
serem arquivados, constantemente voltam a ser consultados pelos munícipes, como
forma de documento comprovante de ações na justiça, ou qualquer outro fato que
requer a publicação em periódicos locais.
Outro serviço de extrema relevância
prestado pelo Arquivo Histórico Municipal “Capitão Hipólito Antônio Pinheiro”, se
refere à emissão de certidões de sepultamento no Cemitério da Saudade, graças à
guarda e informatização dos livros de sepultamento desse cemitério. Esse
serviço tem ajudado constantemente diversas famílias a comprovarem a posse de
sepulturas que até então se encontravam fora dos padrões de regulamentação
exigidos pelo município.
No
decorrer desse artigo procuramos expor várias situações demonstrando a
importância do Arquivo Histórico em assumir seu papel de instrumento de
preservação histórico-cultural, atuando não apenas como um local de guarda de
documentos, mas sim, como um pólo local e regional de pesquisa, educação patrimonial
e, acima de tudo, um órgão prestador de serviços à comunidade em geral.
Através dos exemplos citados,
enfocamos a função social do Arquivo Histórico como um órgão que, ao mesmo
tempo em que acompanha as transformações da sociedade moderna, promove o respeito
ao que foi construído no passado, contribuindo para a formação de uma sociedade
mais sensível e preparada a construir um futuro baseado em um desenvolvimento
sustentável e mais consciente.
*Graduada em História e Direito pela UNESP-Franca,
Diretora do Arquivo Histórico Municipal “Capitão Hipólito Antonio Pinheiro” e
Presidente do CONDEPHAT - Franca.
**Graduanda em História pela UNESP-Franca, Estagiária
do CONDEPHAT - Franca.
***Graduado em História pela UNESP – Franca,
Funcionário do Arquivo Histórico Municipal “Capitão Hipólito Antonio Pinheiro”.
[1]
MARTINS, N. R. Noções Básicas para
Organização de Arquivos Ativos e Semi-Ativos. Campinas: UNICAMP, 1998. p.
4. Apostila disponível em http://www.unicamp.br/siarq/arq_setoriais/nocoes_basicas_para_organizacao_de_arquivos.pdf
Acessado em 10/04/2008.
[2] Idem
[3] Artigo
extraído do site do IPHAN, www.iphan.gov.br em 31/03/2008.
[4] HORTA,
M.L.P., GRUNBERG, E., MONTEIRO, A.Q. Guia
Básico de Educação Patrimonial. Brasília: Instituto do Patrimônio Histórico
e Artístico Nacional, Museu Imperial, 2006. p. 6.
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