segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Depressão e ansiedade em adolescentes de escolas públicas e privadas

 Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0047-20852007000300003
 Joana D’Arc Vila Nova JatobáI; Othon BastosII
IFaculdade de Enfermagem Nossa Senhora das Graças, Universidade de Pernambuco (UPE) 
IIDepartamento de Psiquiatria, Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)
RESUMO
OBJETIVO: Identificar prevalência de depressão e de ansiedade em adolescentes matriculados e freqüentando escolas públicas e privadas da cidade do Recife – Pernambuco. 
MÉTODOS: Por meio de estudo de prevalência, de base populacional, admitindo população de 10.414 alunos das redes pública e privada, prevalência de depressão e transtornos depressivos de 20,3%, precisão de 5% e nível de significância de 0,05, a amostragem aleatória e estratificada incluiu 243 alunos, do ensino fundamental e médio de 11 escolas, com idade de 14 a 16 anos. As variáveis foram: idade, religião, tipo, adscrição e porte da escola, escolaridade, tempo de estudo, condição estudantil e laboral, características do núcleo familiar, sexo, estado civil, tipo de pele segundo escala de Fitzpatrick (investigadas por questionário demográfico) e grau de depressão e de ansiedade pelas escalas de Hamilton. Para análise estatística, empregou-se programa Statistical Package for Social Sciences. 
RESULTADOS: As prevalências de sintomas depressivos expressivos e de ansiedade igualaram-se a 59,9% e 19,9%, respectivamente. Foram significativas as associações de sintomas depressivos de intensidade grave com o sexo feminino e a crença religiosa diferentes da corrente do cristianismo. A ideação suicida/tentativa de suicídio foi referida por 34,3% dos estudantes. Houve associação significativa de ideação suicida com grau leve ou moderado de sintomas depressivos e moderado de ansiedade, assim como de tentativa de suicídio com sintomas depressivos graves, estudo em escola privada e ansiedade severa. 
CONCLUSÕES: A gravidade das características psicopatológicas em uma idade tão jovem está a merecer uma intervenção psicossocial para reduzir suas repercussões para o futuro.
Palavras-chave: Adolescência, depressão, ansiedade, prevalência.
INTRODUÇÃO
A adolescência, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), é o período da vida a partir do qual surgem as características sexuais secundárias e se desenvolvem os processos psicológicos e os padrões de identificação, que evoluem da fase infantil para a adulta. Entre elas, está a transição de um estado de dependência para outro de relativa autonomia. Considera-se adolescência o período de 10 a 19 anos e distingue-se adolescência inicial (entre 10 e 14 anos de idade) e adolescência final (na idade de 15 a 19 anos) (WHO, 2000).
É um período de intensas modificações no desenvolvimento humano, marcado por alterações biológicas da puberdade e relacionado à maturidade biopsicossocial do indivíduo. Desse modo, é identificada como um período de crise, pela experiência de importantes transformações mentais e orgânicas capazes de proporcionar manifestações peculiares em relação ao comportamento normal para a faixa etária. Estas podem, contudo, ser confundidas com doenças mentais ou manifestações comportamentais inadequadas (Peres e Rosenburg, 1998).
Aberastury et al. (1983), ao caracterizarem as modificações psicossociais da adolescência, alertaram que, nessa fase, vários processos de luto são vivenciados. Knobel (2007) denomina o conjunto desses processos de síndrome normal da adolescência (SNA), na qual as principais perdas são: a) do corpo infantil; b) dos pais da infância; c) da identidade e do papel sociofamiliar infantil, que devem ser elaborados para alcançar a posição adulta definitiva. A estas perdas, somam-se os processos de escolha afetiva, a autonomia em relação aos pais, a descoberta progressiva do tornar-se adulto sem a plenitude das aptidões correspondentes e uma verdadeira explosão biológica-humoral peculiar, inerente a esse desenvolvimento (ABEn, 2001). Se os conflitos próprios dessa fase forem mal conduzidos, podem contribuir para o surgimento de transtornos do humor e, em particular, da depressão (Ranña, 2001).
A concepção tendenciosa à patogenicidade da adolescência, aqui incluída a SNA, é merecedora de crítica, pois estudos epidemiológicos têm revelado que a maioria dos jovens passa pela adolescência sem distúrbios importantes (Offer e Schonert-Reichl, 1992) e que as alterações do humor, o ato de experimentar coisas novas, contestar e testar limites parecem ser características próprias à vida dos adolescentes. Desequilíbrios persistentes não são a regra, e o desenvolvimento normal deve ser distinguido do psicopatológico (Haarasilta, 2003). A depressão, embora freqüentemente não reconhecida, é comum nessa faixa etária. Habitualmente, é debilitante e crônica no seu curso, com efeitos adversos em longo prazo, especialmente senão for tratada (Birmaher et al., 1996). Assim, a depressão na adolescência vem se constituindo em um crescente e preocupante problema de saúde pública, ainda que poucos estudos epidemiológicos sobre o tema, neste período da vida, tenham sido realizados (Bahls, 2002).
Crianças e adolescentes depressivos costumam apresentar altas taxas de comorbidade com outros transtornos psiquiátricos, em freqüência maior do que em adultos deprimidos (Bahls, 2002). Goodyer e Cooper (1993) destacam que os transtornos depressivos em crianças e adolescentes, em 40% dos casos, associam-se a comorbidades como transtornos de ansiedade e, em 15% dos casos, com transtornos de conduta. Segundo Steinberg e Morris (2001), "nenhuma tentativa de desenvolver uma teoria geral do desenvolvimento adolescente normal encontrou ainda ampla aceitação", mas Haarasilta (2003) considera que as pesquisas sobre o desenvolvimento natural do adolescente são ainda escassas, o que torna plausível admitir a necessidade de mais bem conhecer as modificações psíquicas dessa fase da vida.
O trabalho como enfermeira em diversas especialidades médicas, por longo período, atendendo também a pacientes na fase da adolescência, deixou perceber a importância da saúde mental na qualidade de vida desses pacientes e convidou à reflexão de que os adolescentes não submetidos à internação hospitalar também poderiam ter sua qualidade de vida comprometida por distúrbios da saúde mental, entre eles, a depressão e a ansiedade. Assim motivada, buscou-se na literatura pertinente a base científica dessa hipótese e se identificou a dimensão do problema e a importância do tema, em uma abordagem não hospitalocêntrica, mas social.
É necessário ampliar os estudos sobre depressão em adolescentes em razão da gravidade da doença, aos danos que ela causa à saúde dos indivíduos e a sua incidência crescente. Além disso, julgou-se pertinente associar a investigação da presença da ansiedade à da depressão em adolescentes, pelo fato de a ansiedade ser a comorbidade mais freqüente nos transtornos depressivos.

O presente artigo tem o objetivo de identificar as prevalências de depressão e de ansiedade em adolescentes regularmente matriculados e freqüentando escolas públicas e privadas da cidade do Recife.

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