Didactica
Magna (1621-1657)
Iohannis Amos Comenius
(1592-1670)
Disponível em:
http://www2.unifap.br/edfisica/files/2014/12/A_didactica_magna_COMENIUS.pdf
Capítulo VI O HOMEM TEM
NECESSIDADE DE SER FORMADO, PARA QUE SE TORNE HOMEM
As sementes não são ainda
frutos.
1. Como vimos, a natureza dá as sementes do
saber da honestidade e da religião, mas não dá propriamente o saber, a virtude
e a religião; estas adquirem-se orando, aprendendo, agindo. Por isso, e não sem
razão, alguém definiu o homem um «animal educável», pois não pode tornar-se
homem a não ser que se eduque. É inata no homem a aptidão para saber, mas não o
próprio saber.
2. Efetivamente, se
consideramos a ciência das coisas, é próprio de Deus saber tudo, sem princípio,
sem progresso, sem fim, mediante um só e simples ato de intuição; mas nem ao
homem nem ao anjo pode dar este saber, pois não lhe podia dar a infinitude e a
eternidade, isto é, a divindade. Aos homens e aos anjos basta aquele grau de
excelência de haverem recebido a agudeza de inteligência, com a qual podem
indagar as obras de Deus e assim acumular para si um tesouro intelectual.
Precisamente por isso, consta, acerca dos anjos, que eles, contemplando,
aprendem e, por isso, o conhecimento deles,
de igual modo que o nosso, é experimental.
3. Ninguém acredite,
portanto, que o homem pode verdadeiramente ser homem, a não ser aquele que
aprendeu a agir como homem, isto é, aquele que foi formado naquelas virtudes
que fazem o homem. Isto é evidente pelos exemplos de todas as criaturas, as
quais se não tornam úteis ao homem, embora a isso destinadas, a não ser depois
de adaptadas pela nossa mão. Por exemplo: as pedras foram-nos dadas para
servirem para construir casas, torres, muros, colunas, etc.; mas, de fato, não
servem para isso, a não ser depois de talhadas, desbastadas e esquadriadas
pelas nossas mãos. Do mesmo modo, as pérolas e as gemas, destinadas a servirem
de ornamentos humanos, devem ser cortadas, raspadas e polidas pelos homens
[...]
4. O homem, enquanto tem um
corpo, é feito para trabalhar; vemos, todavia, que de inato ele não tem senão a
simples aptidão; pouco a pouco, é necessário ensinar-lhe a estar sentado e a
estar de pé, a caminhar e a mover as mãos, a fim de que aprenda a fazer
qualquer coisa. Como pode, portanto, a nossa mente, sem uma preparação prévia,
ter a prerrogativa de se mostrar perfeita em si e por si? Não é possível,
porque é lei de todas as coisas criadas o começar do nada e elevar-se
gradualmente, tanto no que diz respeito à essência como no que diz respeito às
ações.
5. Evidentemente, estes
resultados obtêm-se, da mesma maneira, no homem cujo cérebro (que, como atrás
dissemos, é semelhante à cera, recebendo as imagens das coisas que lhe são
transmitidas pelos sentidos), na idade infantil, é inteiramente húmido e mole e
apto a receber todas as figuras que se lhe apresentam; mas depois, pouco a
pouco, seca e endurece, de tal modo que nele mais dificilmente se imprimem ou
esculpem as coisas, como a experiência demonstra. Daqui, a seguinte afirmação
de Cícero: «as crianças apreendem rapidamente inúmeras coisas» [1]. Assim
também as nossas mãos e os nossos outros membros não podem exercitar-se nas
artes e nos ofícios senão nos anos da infância, em que os nervos estão tenros.
Se alguém quer vir a ser bom escrivão, pintor, alfaiate, ferreiro, músico,
etc., deve aplicar-se ao seu ofício desde os primeiros anos, enquanto a
imaginação é ágil e os dedos flexíveis; de outro modo, nunca fará nada de bom.
[...] As escolas devem ser
asilos comuns da juventude. 1. Que devem ser enviados às escolas não apenas os
filhos dos ricos ou dos cidadãos principais, mas todos por igual, nobres e
plebeus, ricos e pobres, rapazes e raparigas, em todas as cidades, aldeias e
casais isolados.
4. Não deve fazer-nos
obstáculo o fato de vermos que alguns são rudes e estúpidos por natureza, pois
isso ainda mais recomenda e torna mais urgente esta universal cultura dos
espíritos. Com efeito, quanto mais alguém é de natureza lenta ou rude, tanto
mais tem necessidade de ser ajudado, para que, quanto possível, se liberte da
sua debilidade e da sua estupidez brutal. Não é possível encontrar um espírito
tão infeliz, a que a cultura não possa trazer alguma melhoria.
8. Se alguém disser: onde
iremos nós parar, se os operários, os agricultores, os moços de fretes e
finalmente até as mulheres se entregarem aos estudos? Respondo: acontecerá que,
se esta educação universal da juventude for devidamente continuada, a ninguém
faltará, daí em diante, matéria de bons pensamentos, de bons desejos, de boas
inspirações e também de boas obras. E todos saberão para onde devem dirigir
todos os atos e desejos da vida, por que caminhos devem andar e de que modo
cada um há- de ocupar o seu lugar. Além disso, todos se deleitarão, mesmo no
meio dos trabalhos e das fadigas, meditando nas palavras e nas obras de Deus, e
evitarão o ócio, causa de pecados carnais e de delitos de sangue, lendo
freqüentemente a Bíblia e outros bons livros.
Que se entende por aquele
«tudo» que, nas escolas, se deve ensinar e aprender?
1. Importa agora demonstrar que, nas escolas,
se deve ensinar tudo a todos. Isto não quer dizer, todavia, que exijamos a
todos o conhecimento de todas as ciências e de todas as artes (sobretudo se se
trata de um conhecimento exato e profundo). Com efeito, isso, nem, de sua
natureza, é útil, nem, pela brevidade da nossa vida, é possível a qualquer dos
homens.
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