08/10/2014
às 06h46
Aborto legal no RJ: ignorado nos debates
eleitorais e desrespeitado pelo governo
Especialistas relatam falta de estrutura hospitalar e de preparação de
equipes médicas
Mesmo evitado nas campanhas eleitorais, o tema aborto ganhou destaque
nas últimas semanas com a repercussão de dois casos trágicos: o de Jandira
Magdalena dos Santos, de 27 anos, e Elisângela Barbosa, de 32 anos,
vítimas fatais do procedimento em clínicas clandestinas do Rio de
Janeiro. Enquanto que no âmbito político as discussões em torno da
legalização são polemizadas, o aborto legalizado, ou seja, aquele garantido
pela Lei Federal 12.845, tenta subsistir em meio ao desrespeito dos
governos estadual e municipal, que além de não divulgar satisfatoriamente o
serviço na rede pública, ainda oferecem uma estrutura sucateada, com
profissionais despreparados, às mulheres vítimas de violência sexual e em risco
de morte.
Sancionada em agosto de 2013 pela presidenta Dilma Rousseff, a Lei
12.845 garante à mulher vítima de estupro e em risco de morte por complicações
durante a gestação e que desejam abortar, o direito ao atendimento
“emergencial, integral e multidisciplinar” nos hospitais do Sistema Único
de Saúde (SUS), que devem dispor de profissionais para orientar e encaminhar as
pacientes aos centros especializados no serviço. Atualmente, há 65 unidades em
funcionamento em 26 estados. No Rio de Janeiro, somente a Maternidade Municipal
Fernando Magalhães, localizada em São Cristóvão, Zona Norte da cidade, realiza
o abortamento legal, tendo que atender as pacientes vindas de todas as regiões
do estado, inclusive do interior e Baixada Fluminense. A maioria dos casos são
de gestações decorrentes de estupro. Mesmo assim, o número de aborto legal
realizado neste centro especializado não chega a 10 por ano. Um dos centros
estaduais de referência da Saúde da Mulher no Estado de São Paulo, o Hospital
Pérola Byington, realiza em média 130 procedimentos anualmente.
Elas
resistem ao aborto legal para não trazer à tona a sua história no ambiente
familiar
Na contramão dos números de abortos legais realizados na Fernando
Magalhães, as estatísticas da violência sexual contra a mulher no Estado
aumentaram nos últimos anos. Com base nos dados apresentados no Fórum
Brasileiro de Segurança Pública, foram 5.923 estupros cometidos no Rio em
2012, contra 51.101 registrados em todo o Brasil no mesmo período, ou seja,
quase 12% da média nacional, ocupando a segunda posição na incidência de casos
registrados. No evento, os especialistas alertaram para números ainda maiores
desse tipo de violência, levando em conta que raramente a mulher vítima de
violência sexual opta por fazer registro de ocorrência.
De acordo com as informações disponíveis no DataSus, sistema de
informação do Ministério da Saúde, cerca de 67.544 abortos espontâneos e
induzidos foram realizado no ano passado no Rio de Janeiro. Um estudo
feito pelo pesquisador do Instituto de Medicina Social da UERJ, Mario
Francisco Giani Monteiro, utilizando esses dados oficiais, estima que 16.886
internações foram registradas em 2013 para este fim. O pesquisador concluiu
que para cada aborto com complicações registrado no SUS, quatro são
executados em clínicas clandestinas. Esse calculo não especifica os abortos
feitos em decorrência de violência sexual ao anormalidades na gestação.
Dupla violência à mulher
A ex-subsecretária de Políticas para as Mulheres do Estado, Adriana
Mota, observa a desproporcionalidade nos registros de crimes de estupro e o
número oficial de abortos legais realizados no Estado. "Quando comparamos
esses dados, verificamos que se forma um funil, com um número ínfimo de abortos
em relação as estatísticas alarmante de estupro. Isso acontece porque as
mulheres violentadas ainda se sentem inseguras em denunciar e tomar uma
providência para resolver a questão. Elas resistem em fazer o registro policial
e o aborto legal para não trazer à tona a sua história no ambiente familiar.
Muitas são casadas, com filhos", destaca Mota.
Um fato mais grave e que corriqueiramente acontece nos casos
de violência sexual contra a mulher no Rio de Janeiro é a vítima,
principalmente por desconhecimento do serviço, não procurar as unidades de
saúde nas primeiras 72 horas após a violência e, por isso, não receber o
tratamento adequado para a prevenção de uma possível gestação e contaminação
por doenças sexualmente transmissível. Mota, que conviveu com esta dura
realidade enquanto ocupou o cargo no governo, descreve um cenário de descaso
das autoridades, que resulta no sucateamento do serviço no Rio e oferece riscos
à saúde da mulher, além de eventuais preconceitos e julgamentos a que fica
exposta por equipes médicas despreparadas para esse tipo de atendimento.
A ex-subsecretária conta que a mulher, quando procura um hospital na
esperança de resolver o seu problema, não recebe as orientações adequadas e, na
maioria das vezes, não é encaminhada para o Centro de Referência, no caso a
Maternidade Fernando Magalhães. Ela cita que o tabu de muitos profissionais de
saúde acerca do aborto e a objeção de consciência de médicos prejudicam o
atendimento das vítimas. "O estado deveria assegurar, por força da lei, o
amparo e atendimento a estas pacientes, mas isso não está acontecendo aqui no
Rio. As mulheres vítimas de estupro não estão chegando às unidades hospitalares
para serem devidamente medicadas por negligência do governo estadual. O estado
deveria cumprir a legislação, qualificando as suas equipes, para que todos
possam conhecer melhor as leis que garantem o aborto legal. Os hospitais
deveriam ser melhor equipados para receber essas pacientes, já que avançamos
tanto na área médica. Temos métodos recomendados pela OMS [Organização Mundial
de Saúde] para esses casos, mas os hospitais do Rio continuam usando procedimentos
arcaicos, como a curetagem, quando o indicado é a aspiração manual
intra-uterina (AMIU), nos estágios iniciais de gravidez, por oferecer menos
riscos de complicações, ou por aplicação de medicamento, nos
estágios maisavançados", destaca Mota.
No ano de 2000, Adriana Mota ministrou cursos de capacitação em seis
unidades do Estado, para profissionais que atendem casos de aborto legal.
"Depois disso, não tive maisconhecimento de ações para qualificar os
profissionais que atuam neste setor", comentou a ex-secretária. O quadro
reduzido de equipes médicas nos hospitais da rede pública é outro fator citado
por Mota que inviabiliza a atualização dos profissionais. "Como são poucas
pessoas trabalhando, nem dá para libera-los para cursos e palestras. A rede não
comporta esse planejamento, pode até impactar o atendimento", diz ela.
A profissional esclarece que a mulher, quando sofre uma violência sexual
e procura atendimento hospitalar, deve passar por um aconselhamento pelas
equipes médicas, para que ela tenha certeza das suas decisões. "Participei
de uma pesquisa com mulheres que interromperam a gravidez e nenhuma delas teve
qualquer tipo de arrependimento, porque receberam o suporte adequado e de uma
equipe multidisciplinar", conta ela.
Quando a vítima é adolescentes e até mesmo crianças,
ficam mais vulneráveis aos riscos. Para essa classe, as dosagens de
medicamentos e procedimentos são diferenciados. "Nestes casos, a norma
técnica ajuda muito", enfatiza. No entanto, o tratamento destinado à
população mais jovem envolve uma dose maior de comoção coletiva e da
própria equipe médica, que pode interferir no tratamento. "Acompanhei um
caso que aconteceu com uma menina da área rural de Campos [no Sul Fluminense].
Uma multidão se concentrava na porta do hospital para tentar evitar o aborto da
criança. Conseguiram impedir a intervenção. Logo depois disso, a menina
apareceu grávida novamente", contou a ex-secretária.
Adriana Mota ressalta a importância do atendimento imediato nos casos de
estupro para a administração do contraceptivo de emergência, que em 98% dos
casos é eficiente e evita a gravidez, segundo ela. "Mas para tal
resultado, ele [contraceptivo de emergência] tem que ser aplicado em 72 horas
após a violência sexual", destaca. Porém, Mota comenta estudos que
comprovam o comportamento contrário das vítimas, que evitam o atendimento
médico por medo de sofre preconceito. "Esse tipo de crime agride o
que há de mais íntimo na mulher, atinge o seu casamento, filhos. Para
fazer um registro e até procurar ajuda nas unidades médicas, elas têm que
revelar o fato. Então, muitas desistem. E assim pode vir a gravidez
indesejada", analisa Adriana Mota.
Ex-subsecretária de Políticas para as Mulheres do
Estado, Adriana Mota
Ela diz ainda que muitas vítimas são responsabilizadas pelo crime que
sofreu, por estar usando uma roupa decotada, ou ter feito uso de bebidas
alcoólicas. São questões morais sobrepondo a uma questão de saúde pública.
"Isso pesa muito na hora da mulher decidir se procura ou não ajuda médica
e policial. Além dos órgãos de saúde, os de segurança pública também
podem julgar a vítima, desqualificando-as. Esta é a segunda agressão que ela sofre. Sem contar que
todo o processo de denúncia é bem longo", analisa a ex-secretaria
estadual.
Mota esclarece ainda que a
comunicação policial não é obrigatória, sendo uma opção da mulher para que o
seu crime seja investigado. Ela cita a Lei sancionada pelo governo federal, que
já determina que os profissionais de saúde que fizerem o atendimento deverão
colher o máximo de indícios que podem ser úteis para a comprovação da violência
sexual. "As provas podem ser roupas da vítima, coleta de material embaixo
das unhas, pentear os pelos pubianos, coleta de esperma. Tudo isso deve ser
feito, obrigatoriamente, ainda no hospital, no atendimento de emergência.
Assim, quando a mulher procura o centro especializado já decidida a interromper
a gestação, não precisa de registro policial, até porque há outros meios de
comprovar que ela foi vítima daquele crime", explica Mota.
O atendimento à vítima de violência
sexual deve ser garantido pela norma técnica da Atenção Humanizada, que define
os procedimentos médicos corretos. "A norma técnica, bem antiga, deveria
ser velha conhecida dos profissionais de saúde, mas ela ainda está engavetada
nas unidades da rede pública. Com isso, observamos que o estado até avançou
naqueles casos de menor complexidade, mas quando a mulher chega a uma
gravidez, tudo complica para a garantia da sua saúde e integridade dos seus
direitos", destaca a profissional.
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