A escalada do sofrimento dos refugiados
POR ANGELIna jolie
KHANKE, Iraque — Desde 2007 já estive
no Iraque cinco vezes e nunca vi sofrimento maior como o que testemunhei dessa
última vez. Fui visitar os campos e assentamentos informais onde iraquianos
desalojados e refugiados sírios chegam, desesperados em busca de abrigo e
proteção contra a luta que toma conta das regiões onde vivem. Em quase quatro
anos de guerra, quase metade da população da Síria, que é de 23 milhões de
habitantes, teve que se deslocar. Dentro do Iraque, mais de um milhão fugiu do
conflito e do terror impostos pelos grupos extremistas. Essas pessoas são
testemunhas de uma brutalidade inominável. Seus filhos não podem estudar, elas
lutam para sobreviver e se veem cercadas de violência por todos os lados. Há
vários anos visito os acampamentos e todas as vezes procuro me sentar com os
moradores e ouvir suas histórias. Tento dar todo o apoio que me é possível,
dizer algo que mostre solidariedade e oferecer uma diretriz, alguma referência
de esperança – mas desta vez não encontrei palavras. O que dizer a uma mãe, com
lágrimas nos olhos, que fala da filha que está nas mãos do Estado Islâmico e
confessa que preferia estar com ela? Mesmo que fosse estuprada e torturada,
afirma, seria melhor do que não ter a menina ao seu lado. O que dizer a uma
garota de treze anos que descreve os galpões onde ela e outras ficaram e de
onde eram tiradas, três por vez, para serem estupradas pelos homens? Quando seu
irmão descobriu, se matou. Como articular alguma coisa quando uma mulher da
minha idade me olha nos olhos e diz que viu a família ser morta na sua frente e
agora vive só com um mínimo aceitável de comida para sobreviver? Em uma das
barracas, conheci oito irmãos. Órfãos. O pai foi morto, a mãe desapareceu,
provavelmente feita refém. O rapaz de 19 anos é o que sustenta a todos. Quando
comento que é muita responsabilidade para alguém tão jovem, ele só sorri e põe
o braço no ombro da irmã caçula. Afirma que se sente agradecido pela
oportunidade de trabalhar e ajudar. E é sincero. Ele e sua família são a
esperança de algum futuro. São fortes e determinados contra todas as expectativas.
Nada prepara a gente para a realidade de tanto sofrimento individual, para as
histórias de dor e morte, o olhar traumatizado e faminto das crianças. Quem
pode culpá-los por acharem que desistimos deles? Estão recebendo uma fração da
ajuda humanitária de que necessitam. Não houve nenhum avanço nas tentativas de
acabar com a guerra na Síria desde que as negociações de Genebra fracassaram,
há um ano. O país arde em chamas e várias regiões do Iraque estão em conflito.
As portas de muitas nações se fecharam. Não há a quem recorrer. Os países
vizinhos da Síria precisam receber um volume de assistência muito maior para
suportar o fardo insustentável de milhões de refugiados. As iniciativas
humanitárias da ONU sofrem de uma carência drástica de fundos. As nações fora
da região devem oferecer proteção para os mais vulneráveis se reerguerem – as
vítimas de estupro e tortura, por exemplo. Acima de tudo, porém, a comunidade
internacional tem que encontrar um caminho para o acordo de paz. Não basta
defender nosso valores em casa, nos nossos jornais e nas nossas instituições; é
preciso fazê-lo nos campos de refugiados do Oriente Médio e nas cidades
fantasmas, em ruínas, da Síria.
Angelina Jolie é diretora, enviada especial do Alto Comissariado das
Nações Unidas para Refugiados e uma das fundadoras da Iniciativa de Prevenção
da Violência Sexual.
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